APRESENTAÇÃO
TELEVISÃO, TELENOVELA E INTERNET: NOVAS PERSPECTIVAS E METODOLOGIAS NA PESQUISA HISTÓRIA
O dossiê Televisão, Telenovela e Internet: novas perspectivas e metodologias na pesquisa histórica reúne uma seleção de artigos que dialogam com os desafios e as possibilidades do uso de mídias audiovisuais e digitais como fontes históricas. Em um contexto em que televisão, telenovela, internet e, também, o cinema ocupam papéis centrais na construção de narrativas sociais e culturais, este conjunto de textos propõe reflexões interdisciplinares voltadas à inovação metodológica na historiografia contemporânea.
Os trabalhos aqui apresentados abordam diferentes aspectos da intersecção entre mídia e história, evidenciando como programas do audiovisual (telenovelas, minisséries, séries e filmes) e conteúdos digitais não apenas refletem realidades socioculturais, mas também atuam como agentes na conformação de identidades, memórias e discursos.
Nesse sentido, abrimos o dossiê com o artigo Roque Santeiro: uma novela como objeto de estudo, de Mara Rúbia Gusson Vittorazzi e Luiz Eduardo Pinto Barros, que analisa a telenovela homônima como uma rica fonte para a pesquisa histórica. O trabalho discute como a trama, exibida entre 1985 e 1986 pela Rede Globo, transcende o mero entretenimento ao incorporar críticas sociais, políticas e culturais do Brasil no período de transição da ditadura militar para a democracia.
Os autores destacam o potencial da teledramaturgia como instrumento de análise histórica, apontando que os elementos narrativos, técnicos e estéticos do gênero melodramático permitem apreender representações socialmente construídas e contextos sociopolíticos. A obra também dialoga com debates teóricos sobre o uso de fontes audiovisuais na historiografia, enfatizando a necessidade de uma abordagem crítica e interdisciplinar. A análise de Roque Santeiro revela, assim, a força da telenovela como veículo de reflexão sobre o Brasil, sua cultura popular e seus processos históricos.
Em seguida, temos o artigo Teledramaturgia e ensino de História do Brasil: aprendendo sobre o cangaço com a novela Mandacaru (1997-1998), de Bruno José Yashinishi, que propõe o uso pedagógico da telenovela como ferramenta no ensino de História. A obra, exibida pela extinta Rede Manchete, é analisada como recurso para trabalhar o tema do cangaço com estudantes do ensino básico, aproximando-os de forma crítica e envolvente desse fenômeno histórico. Ambientada no sertão baiano, Mandacaru mistura elementos ficcionais e históricos, destacando conflitos entre cangaceiros, coronéis e forças oficiais, além de apresentar personagens complexos e dilemas sociais que refletem o Brasil daquela época.
O autor defende que produções audiovisuais como Mandacaru podem funcionar como fontes secundárias no processo educativo, incentivando o pensamento crítico e a compreensão de como a mídia contribui para a construção da memória histórica. Além de promover práticas pedagógicas que incluem análise comparativa entre ficção e realidade, debates em sala de aula e atividades criativas — como redações, encenações e produções audiovisuais.
Na sequência temos o artigo O uso de minisséries como recurso pedagógico: a Revolução Farroupilha a partir d’ A Casa das Sete Mulheres, de Jéfferson Balbino, que investiga o potencial educativo da minissérie da TV Globo (2003), adaptada do romance homônimo de Letícia Wierzchowski. O autor analisa como a obra pode ser integrada ao Ensino de História, articulando literatura, audiovisual e historiografia. A partir do contexto da Revolução Farroupilha, a narrativa se concentra nas vivências das mulheres da elite gaúcha, destacando suas emoções, dilemas e papel social durante o conflito. A abordagem permite repensar a História a partir de uma perspectiva de gênero, promovendo a visibilidade feminina em um evento tradicionalmente contado sob o viés masculino e militar.
O artigo ressalta que o uso de minisséries na sala de aula, quando mediado criticamente pelo professor, amplia a capacidade dos alunos de refletirem sobre as representações históricas na mídia e a construção da memória coletiva. Balbino propõe atividades pedagógicas como análises comparativas entre a ficção e documentos históricos, produção de resenhas e debates sobre identidade, gênero e narrativa. Embora a obra dramatize e romantize os acontecimentos, ela se mostra uma ferramenta eficaz para despertar o interesse dos estudantes e desenvolver competências analíticas, desde que seu conteúdo seja confrontado com outras fontes e situado no tempo histórico com rigor e criticidade.
No artigo Narrativas sobre a Ditadura Militar: o uso de telenovelas como fonte histórica, de Giovana Mylena Silva Soares nos mostra como a telenovela Amor e Revolução (2011), exibida pelo SBT, emerge como uma tentativa significativa de reconstruir a memória da Ditadura Militar no Brasil, ao mesclar ficção dramática com depoimentos reais de vítimas e participantes do regime. Apesar de suas limitações como produto comercial e das contradições internas da emissora, a obra trouxe ao horário nobre discussões sensíveis sobre repressão, resistência e direitos humanos, contribuindo para democratizar o debate histórico e questionar narrativas revisionistas.
A partir do estudo de Soares vemos que a telenovela Amor e Revolução, além de demonstrar o potencial do audiovisual como ferramenta historiográfica e espaço de disputa simbólica, também é capaz de promover reflexões críticas e ampliar o acesso à história de forma mais inclusiva e acessível.
No texto Em Nome de Santo Dias: representações do uso político da religião em Saramandaia, Osorio Vieira Borges Junior mostra-nos como foi – no remake da obra de Dias Gomes – resgatado elementos do realismo fantástico para abordar questões políticas contemporâneas, transformando a disputa pelo nome da cidade em metáfora das tensões entre tradição e mudança.
Devido ao fato de a trama audiovisual reinterpretar a religiosidade popular dentro de um contexto de disputa ideológica, a telenovela em questão evidencia a dinâmica entre ortodoxia e ortoprática, mostrando que práticas religiosas são constantemente reinventadas de acordo com os contextos sociais e políticos.
Logo após temos o artigo Telenovela e Gênero: a performatividade de Nonato/Elis em A Força do Querer, de Lucas Matheus Araujo Bicalho que discute a trajetória do personagem Nonato, que se transforma em Elis e, conseguintemente, propõe uma potente reflexão sobre identidade de gênero e performatividade.
Amparado nas teorias de Judith Butler, Bicalho mostra que a telenovela, escrita por Glória Perez, consegue demonstrar aos telespectadores que o gênero não é fixo, mas performado e constantemente reeditado, o que confere visibilidade e complexidade à experiência de pessoas trans em um veículo de grande audiência como ainda é a televisão aberta.
No artigo Televisão e conflito armado na Colômbia contemporânea: a representação dos comandantes guerrilheiros nas telenovelas da Caracol Televisión, Priyanka Freire Dhingra analisa como as telenovelas produzidas pela Caracol Televisión, entre 2016 e 2024, representaram os comandantes guerrilheiros em um contexto pós-acordo de paz com as FARC. A autora destaca o uso recorrente de arquétipos negativos para retratar esses personagens, associando-os à perversidade, violência e irracionalidade, como ocorre nas novelas La Niña (2016); Arelys Henao: Canto para No Llorar (2022) e Devuélveme la Vida (2024). Essas construções estereotipadas, muitas vezes sensacionalistas, reforçam a deslegitimação do processo de paz e colaboram para a difusão de uma visão simplificada e maniqueísta do conflito.
Dhingra argumenta que, ao recorrer a estratégias narrativas baseadas em choque e antagonismo, essas telenovelas contribuem para fortalecer discursos conservadores e criar um “outro” demonizado, o que dificulta a compreensão histórica do conflito colombiano. Embora sejam obras de ficção, sua ancoragem em eventos e personagens “baseados em fatos reais” dá à narrativa um verniz de veracidade que impacta diretamente o imaginário coletivo. Com isso, a televisão deixa de apenas entreter e passa a atuar como ferramenta ideológica, moldando percepções sociais e políticas em torno da guerra e da paz.
No artigo Direção equivocada prejudica autor de Mania de Você e explica rejeição à novela, Claudino Mayer analisa os motivos da recepção negativa da telenovela Mania de Você (2024/2025), escrita por João Emanuel Carneiro. O autor argumenta que a direção artística, conduzida por Carlos Araújo, foi decisiva para a baixa audiência da produção, ao adotar escolhas estéticas que destoaram do padrão tradicional da teledramaturgia brasileira. O uso excessivo de close-ups e a ausência de subtramas bem desenvolvidas teriam causado estranhamento, dificultando a identificação do público com os personagens e com a trama principal.
Mayer também destaca que a narrativa ágil e fragmentada, embora inovadora, comprometeu o entendimento geral da história, afastando tanto o público habitual quanto o telespectador ocasional. A falta de personagens cativantes e de ambientações externas, somada à confusão sobre quem seriam os heróis e vilões da história, reforçou a rejeição à telenovela. Ao ignorar convenções clássicas do melodrama e da linguagem televisiva, Mania de Você acabou se distanciando da tradição que consagrou João Emanuel Carneiro (mesmo autor da telenovela de sucesso Avenida Brasil, de 2012), comprometendo sua capacidade de engajar emocionalmente a audiência.
Na sequência, temos o artigo Netnografia como metodologia científica para pesquisa histórica nas redes sociais: o TikTok como estudo de caso, Gabriel Antonio Butzen e Tereza M. Spyer Dulci exploram a aplicação da netnografia — adaptação da etnografia para ambientes digitais — como ferramenta metodológica para estudar a produção e o consumo de narrativas históricas no TikTok. Os autores argumentam que, diante da ascensão da História Pública Digital, a plataforma se destaca como um espaço estratégico tanto para a disseminação do conhecimento histórico quanto para o combate à desinformação. A netnografia, ao permitir a imersão e a análise das interações online, revela-se uma alternativa eficaz para compreender como o público se engaja com conteúdos históricos no ambiente digital.
O estudo enfatiza os desafios éticos e técnicos dessa abordagem, como a necessidade de consentimento dos participantes e a dificuldade de acessar dados internos dos perfis. Ainda assim, Butzen e Dulci demonstram que, ao observar aspectos como o engajamento, frequência de postagens e estratégias narrativas dos criadores de conteúdo, é possível mapear práticas de ensino e divulgação de história adaptadas à lógica e ao algoritmo do TikTok. Assim, o artigo propõe um caminho metodológico robusto e atualizado para pesquisadores interessados nas novas formas de circulação do saber histórico em tempos de redes sociais e cultura digital.
Ainda tendo a internet como o cerne das fontes históricas, temos o estudo de André Wesley Barbosa Oliveira: Internet e pesquisa histórica: possibilidades a partir do portal Memórias da Ditadura que discute o potencial do portal digital como ferramenta para estudos sobre a ditadura militar no Brasil. A plataforma, idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog, destaca-se por sua acessibilidade, diversidade de fontes e abordagem multimídia, reunindo depoimentos, documentos oficiais, materiais didáticos e análises críticas. O autor enfatiza que o site permite não apenas o acesso remoto a fontes históricas, mas também favorece práticas interdisciplinares e a inserção do debate sobre a memória da repressão em diferentes níveis educacionais, democratizando o saber histórico.
Contudo, Oliveira também aponta desafios que acompanham o uso dessas tecnologias/fontes digitais, como a efemeridade dos conteúdos digitais, os riscos de descontinuidade e a necessidade de curadoria criteriosa. Ele alerta que a história digital exige uma postura metodológica renovada, capaz de lidar com os “usos políticos do passado” e com os embates contemporâneos por memória e verdade. Assim, embora a internet amplie os caminhos da pesquisa histórica, ela impõe ao pesquisador uma vigilância crítica sobre os meios, formatos e contextos em que o conhecimento é produzido e disseminado.
No artigo Tulsa sob a imagem e o som: usos do Massacre de Tulsa nas séries de televisão Watchmen (2019) e Lovecraft Country (2020), William Cândido Mengue analisa como o massacre racial ocorrido em Tulsa em 1921 é reinterpretado por meio da linguagem audiovisual nas séries contemporâneas. O autor evidencia como essas produções constroem narrativas que vão além da representação factual, incorporando elementos do trauma transgeracional, da fantologia e da acumulação temporal para explorar as persistências do racismo sistêmico. Através das trajetórias de personagens como Angela Abar e Atticus Freeman, as séries demonstram que o passado violento de Tulsa não está enterrado, mas ecoa no presente, moldando subjetividades e relações familiares.
Mengue argumenta que essas séries utilizam o potencial estético e narrativo do audiovisual para desestabilizar a linearidade histórica tradicional, abrindo espaço para outras formas de conhecimento histórico. Watchmen e Lovecraft Country operam como dispositivos de memória, onde fantasmas do passado retornam para reivindicar espaço no presente e projetar possíveis futuros. Ao situar o massacre de Tulsa como um marco não resolvido da história americana, essas obras evidenciam a importância de se pensar o audiovisual como fonte legítima e potente para o fazer historiográfico no século XXI.
Logo em seguida, temos o artigo: As contribuições dos estigmas do HIV/AIDS ao público homossexual e trans no cinema americano (1990–1995), no qual Antonio Eduardo Oliveira de Lima analisa como produções cinematográficas norte-americanas representaram a epidemia de AIDS e suas associações com identidades marginalizadas. Filmes como Paris is Burning (1990), Philadelphia (1993) e Kids (1995) são examinados como documentos históricos que, além de retratar o sofrimento e a exclusão, também perpetuaram — ou tensionaram — os estigmas sobre homossexualidade, transexualidade e HIV. As narrativas revelam o impacto do preconceito social e da negligência institucional, revelando a AIDS como um marcador de vulnerabilidade atravessado por questões de classe, gênero e raça.
Lima destaca que, embora o cinema contribua para a visibilidade das questões ligadas à epidemia, ele também pode cristalizar representações estigmatizantes, especialmente ao retratar corpos dissidentes como portadores de uma “doença moral”. Através da análise histórica e cultural das obras, o autor propõe uma crítica às formas como o discurso médico, midiático e político colaborou para a marginalização das populações LGBTQIAPN+. Ao mesmo tempo, reconhece o papel desses filmes na construção de uma memória coletiva sobre a crise do HIV/AIDS, tornando-se ferramentas importantes para a crítica social e a sensibilização pública até os dias de hoje.
E, por fim, ainda tratando de obras cinematográficas como fontes de pesquisas históricas temos o artigo Enterrar e Exumar: uma leitura do curta-metragem Torre (2017) como fonte historiográfica, de Venícios Costa Soares que propõe uma análise sensível da animação dirigida por Nádia Mangolini como ferramenta de resistência e memória sobre a ditadura civil-militar brasileira. A partir dos testemunhos dos filhos de Virgílio Gomes da Silva — considerado o primeiro desaparecido político do regime — o curta reconstrói uma narrativa fragmentada por traumas, silêncios e perdas. O articulista evidencia como o audiovisual, articulado com a história oral e a psicanálise, se transforma em instrumento potente de denúncia, rompendo com os apagamentos impostos pelos discursos oficiais e resgatando subjetividades silenciadas.
Soares mostra que, ao reconstruir afetivamente a imagem do pai por meio das memórias dos filhos, Torre contribui para o processo coletivo de elaboração do luto e da justiça histórica. O artigo destaca que o trauma da ditadura não foi encerrado com a Lei da Anistia e que a ausência de responsabilização pelos crimes do regime continua a ferir famílias e a sociedade brasileira. Assim, o curta-metragem não apenas rememora a violência, mas também escava os escombros do passado autoritário, reafirmando – mesmo no formato de animação – que testemunhar é um ato político de resistência contra o esquecimento.
Como demonstrado ao longo deste dossiê, as mídias audiovisuais e digitais — da telenovela ao TikTok, do cinema à animação — constituem hoje fontes historiográficas relevantes e complexas, capazes de provocar novas perguntas, resgatar memórias silenciadas e desafiar os limites tradicionais da escrita da história. As abordagens aqui reunidas revelam o potencial transformador dessas linguagens, não apenas como espelhos da sociedade, mas como agentes ativos na produção de sentidos sobre o passado e o presente. Ao ampliar as possibilidades metodológicas e teóricas da pesquisa histórica, este dossiê convida os leitores da Revista Hominum a refletirem sobre as múltiplas formas de narrar, problematizar e (re)construir a história no tempo presente.
Boa leitura!
Prof. Dr. Jéfferson Balbino
(Universidade Federal da Paraíba – UFPB)

