Revista Hominum https://revistahominum.com.br/ Site da Revista Hominum Fri, 19 Dec 2025 13:18:54 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9 https://revistahominum.com.br/wp-content/uploads/2020/08/cropped-rh-32x32.png Revista Hominum https://revistahominum.com.br/ 32 32 Edição 31 – Dezembro de 2025 https://revistahominum.com.br/2025/12/edicao-31-dezembro-de-2025/ Fri, 19 Dec 2025 13:18:26 +0000 https://revistahominum.com.br/?p=980 Baixe a Edição 31 da Revista Hominum.

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REPRESENTAÇÕES FEMININAS NAS DITADURAS E GENOCÍDIOS DO SÉCULO XX

 

 

Um importante legado das ditaduras e genocídios do século XX é o testemunho de atingidos (direta ou indiretamente) por processos históricos que moldaram ou impactaram a vida cotidiana. Em sentido oposto a encerrar, silenciar ou reconciliar, a narração de vítimas permite o aprofundamento dos traumas históricos e põe em cena outras nuances para revisar os acontecimentos desconsiderados ou desconhecidos por narrativas oficiais e historiográficas. Exemplo disso é o testemunho de Margot Völk, aos noventa e cinco anos, o qual lançou luz sobre a existência de um grupo de mulheres alemãs — do qual fez parte — forçadas a experimentar as refeições do Führer, para salvaguardá-lo de tentativas de envenenamento. E a denúncia de mulheres coreanas, submetidas à prostituição e abusos sexuais por militares japoneses, no bojo da Segunda Guerra.

Nas últimas décadas, a academia expandiu o acompanhamento e legitimação da voz de mulheres que não se calaram e resistiram aos governos ditatoriais da América Latina, cujos órgãos de repressão operacionalizaram o silenciamento, censura, desaparecimento forçado e o controle do corpo feminino, punido por desafiar o poder masculino e militar. Em linhas gerais,  as pesquisas têm destacado a agência de mulheres na luta armada e pacifista, em movimentos sociais pela anistia, à procura de seus desaparecidos políticos ou na reivindicação por memória, verdade e justiça — esta última que mantém a impunidade dos envolvidos em violações de direitos humanos entre 1964 e 1985 no Brasil. Além de situarem a reprodução de discursos e posicionamentos machistas nos partidos da própria esquerda, assim como o monopólio narrativo de ex-presos políticos em livros de memórias, nos quais as companheiras ocupam um papel secundário.

O dossiê Representações femininas nas ditaduras e genocídio do século XX apresenta uma pluralidade de discussões que partem de textos literários, documentos históricos (jornais e revistas, por exemplo) e de relatos que retomam as vivências insurgentes, de modo especial no Brasil e Argentina. Nesse sentido, Memórias da guerra: a representação do trauma em Grama, de Keum Suk Gendry-Kim, de autoria de Tayane Ferreira de Almeida e Dionson Ferreira Canova Júnior, inaugura a compilação de trabalhos.

Os autores põem em pauta a memória traumática de guerra a partir de Grama (2020), uma história em quadrinhos que recupera a experiência de mulheres coreanas vítimas de violências sexuais no contexto da Segunda Guerra Mundial, especificamente ao longo da ocupação japonesa. Já Antonio Eduardo Oliveira de Lima, em Entre memórias e resistências: as vozes femininas na literatura do século XX, parte de uma abordagem interseccional para revelar a vivência de mulheres negras e latino-americanas atravessadas pela violência, silenciamento e resistência em períodos históricos distintos, a partir da produção das escritoras latino-americanas Carolina Maria de Jesus, Lydda Franco Farias e Isabel Allende.

Em relação ao protagonismo de mulheres durante a ditadura civil-militar no Brasil, no artigo O movimento feminino como elemento unificador da luta por anistia, Arielle Gonçalves Vieira e Victor Pinheiro de Menezes mostram como o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA) direcionou grupos sociais pulverizados para a mobilização em favor da redemocratização. Os efeitos do golpe de 1964 em territórios fora do eixo hegemônico, Sul e Sudeste, são analisados por Ana Carolina Rodrigues dos Santos Souza e Karine Carvalho da Cruz, no texto Esquecidos pelo homem, confiantes em Deus: religiosas católicas e sua presença junto às vítimas da Grande Seca nordestina (1979-1983). As autoras contextualizam a religiosidade popular como “estratégia de resistência”, por meio da atuação de religiosas católicas junto à população nordestina, vítima da Grande Seca, evento que espelha a omissão do Estado.

O itinerário de militância da nordestina Dinalva Conceição Teixeira (1945-1974), desaparecida forçada, é recuperado em Dinalva Conceição Teixeira: resistência e memória camponesa na ditadura militar brasileira (1964-1985), de Gabriela Santos de Sousa e Milena Germano da Silva Chagas. O trabalho reconstrói a trajetória de Teixeira como guerrilheira do Partido Comunista do Brasil (PcdoB), que fez parte do movimento armado da Guerrilha do Araguaia, um dos episódios mais turvos do governo militar. Segundo as autoras, no Araguaia, a militante ocupou o posto de vice-comandante e incorporou-se à população local, por meio da implementação de serviços básicos de saúde e educação, também com o fim de recrutar camponeses para a organização — até ser delatada, presa e morta pelos militares.

Nos mais de vinte anos de ditadura no Brasil, a publicidade orientou a construção de um modelo ideal feminino que refletia os valores do regime, e consequentemente o apoio empresarial às Forças Armadas, como apresentam Lucas Matheus Araujo Bicalho e José Marcos Nascimento Pontes, em Pátria, família e beleza: a representação das mulheres na ditadura civil militar no Brasil, a partir da análise de anúncios que circularam à época. Por outro lado, na discussão proposta por A representação de mulheres em um jornal homossexual durante a ditadura militar brasileira, Rogerio dos Santos Michaeli Filho apresenta o periódico Lampião da Esquina como um veículo progressista que confronta o aparelho repressivo, ao denunciar a repressão e discutir temas como a violência contra a mulher, sexualidade feminina e dupla opressão enfrentada por mulheres negras.

A tríade de artigos que encerram o dossiê destaca como a produção literária brasileira e latino-americana tem elaborado o trauma coletivo da perseguição política do passado. A partir de múltiplas abordagens e gêneros, escritores e escritoras representam os temas do desaparecimento forçado; o luto suspenso de familiares das vítimas; a resistência de mulheres contra o autoritarismo e domínio masculino; ou a culpabilização de sobreviventes, vítimas de violências sexuais em centros clandestinos de repressão.

A princípio, Desaparecimento político em narrativas literárias: Ana Rosa Kucinski e a busca por uma desaparecida, de autoria de Anna Klara Carvalho Consentino, reflete acerca da militância de Ana Rosa Kucinski, desaparecida durante o regime militar brasileiro. A autora delineia um breve panorama sobre o gênero como intensificador da violência perpetrada pelo sistema repressivo; e o romance K. Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, irmão de Ana Rosa. Nessa leitura, a obra é compreendida como um manifesto de preservação da memória, em resposta à violência de desaparição do corpo, como define Consentino.

Em El no poder: a luta pelo luto na ditadura civil-militar argentina, Thais Neves Marcelo parte de teóricos como Hegel e Simone de Beauvoir para contrastar Antígona, tragédia clássica de Sófocles, com a peça Antígona Furiosa, da argentina Griselda Gambaro. O estudo faz um exame crítico sobre a reação feminina contra o autoritarismo, com atenção especial para a performance de gênero durante o governo da Junta Argentina e o engajamento das Madres de Plaza de Mayo, que dialoga com as obras do corpus principal de Marcelo.

Caroline Peres Martins fecha o dossiê com “‘Violación sí, delación nunca’”: o dogmatismo da esquerda armada revisto em La llamada, na qual investiga a dessacralização da esquerda armada ancorada em La llamada de Leila Guerriero, um perfil biográfico da ex-montonera Silvia Labayru, sobrevivente da Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA). Sobretudo quanto à culpabilização de mulheres sobreviventes, vítimas de violência sexual nos centros clandestinos colocadas em suspeição, como critica Labayru — lançada ao ostracismo pela acusação de colaboração.

À guisa de conclusão, o percurso pelos artigos reunidos no dossiê Representações femininas nas ditaduras e genocídio do século XX tonifica a pluralidade da produção científica nacional ligada à presença de mulheres em eventos traumáticos do século passado, a exemplo da Segunda Guerra Mundial e dos regimes ditatoriais da América do Sul. Uma tarefa imperativa diante da ascensão da extrema-direita e da demanda de uma democracia, de fato, mais participativa e inclusiva. Desde uma perspectiva interdisciplinar, os trabalhos revisitam criticamente o passado, a fim de trazer à baila as vivências de personagens esquecidas ou pouco referenciadas, bem como de vítimas — diretas e indiretas — que questionaram o autoritarismo ou romperam com o silêncio imposto pelos algozes.

 

Prof.ª Ma. Caroline Peres Martins

Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

 

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Edição 30 – Novembro – 2025 https://revistahominum.com.br/2025/11/edicao-30-novembro-2025/ Mon, 03 Nov 2025 11:27:34 +0000 https://revistahominum.com.br/?p=974 Baixe a edição 30 da Revista Hominum.

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TECENDO MEMÓRIAS: DITADURA CIVIL-MILITAR, NARRATIVAS DISSIDENTES E O PASSADO VIVO NO BRASIL DO PRESENTE

 

Andrei Chirilã

Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHS) – Universidade de São Paulo (USP)

 

Izabella Cardoso da Silva Campagnol

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em História Social (PPGHS) – Universidade de São Paulo (USP)

 

O fim da Ditadura Militar em 1985 marcou mais do que o encerramento oficial de um período de 21 anos de autoritarismo e violações de direitos humanos por parte do Estado brasileiro. O retorno à democracia, ainda que em muitos aspectos restrito ao nível formal e trazendo consigo diversos resquícios do período anterior, permitiu a emergência de vozes antes silenciadas em decorrência da repressão.

Neste contexto, a memória se constitui como um meio importante para repensar as marcas legadas por esse período à sociedade brasileira e como os efeitos da Ditadura continuam a ser sentidos, discutidos, significados e ressignificados na atualidade. Isto se refere especialmente a como a memória e as lembranças servem, como destaca Michel Pollak em seus artigos Memória, Esquecimento, Silêncio (1989) e Memória e identidade social (1992) como instrumentos de reivindicação das minorias sociais, bem como para o reconhecimento da participação desses sujeitos nos eventos históricos.

Deste contexto, pretendemos pensar a presente edição da revista a partir de um conjunto de textos que propusessem reflexões substantivas sobre a ditadura militar no Brasil, com destaque para grupos sociais marginalizados: mulheres, camponeses, militantes políticos contrários ao regime militar, como alguns dos exemplos de artigos recebidos nesta edição de dossiê. O que perpassa esses artigos é o fato de que todos buscam trazer à baila diferentes visões sobre eventos ocorridos durante a ditadura.

Sabe-se que o golpe militar que assolou o país em 31 de março de 1964 iniciaria uma ditadura que se estendeu por 21 anos em nosso país. Governando por meio de decretos e atos institucionais, o regime buscou firmar-se por meio de amplas acomodações, bem como o emprego da tortura como prática de Estado e o controle, por meio da censura, dos meios de comunicação.

Segundo Maria Helena Moreira Alves em sua obra Estado e Oposição no Brasil (1964-1984) (1989), o objetivo do golpe foi preservar os interesses do capital internacional aliado aos interesses do Estado brasileiro. Para tanto, fez-se uso da Doutrina de Segurança Nacional que embasou a ação dos generais militares e deu sustentação ao projeto repressivo que realizou seus anseios através dos órgãos de repressão, cuja subordinação estava ligada ao Serviço Nacional de Informações (SNI).

Essa doutrina tinha como principal objetivo ideológico afastar o “inimigo interno” do país e combatê-lo com veemência. Assim, os diversos órgãos repressivos montados para reprimir os movimentos dissidentes e grupos contrários ao status quo serviram ao propósito de manter os militares no poder e simultaneamente garantir a continuidade de um projeto de capitalismo aliado ao interesse estadunidense na Guerra Fria (1945-1989).

É errada a ideia de que apenas o período compreendido entre os anos de 1968 a 1975 foram os mais duros do regime, pois a criação dos órgãos repressivos é anterior a este período, e já nos primeiros anos de ditadura foi possível verificar a perseguição aos grupos dissidentes e a indivíduos contrários aos militares, conforme Renato Lemos destacou em sua obra Ditadura, anistia e transição política no Brasil (2018).

Contudo, é neste período, conhecido como Anos de Chumbo, iniciado com o decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que a repressão e a censura se acirraram. Também neste período, sob coordenação das alas radicais do regime, ligadas à Escola Superior de Guerra (ESG) que as redes de repressão passaram a se incrementar com a fusão de diversos serviços de repressão sob o Departamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna e a Operação Bandeirantes (Oban).

Por meio dos artigos que compõem o presente dossiê, combatemos a ideia de que no Brasil teria ocorrido uma ditabranda,[1] uma vez que o número de mortos vítimas fatais do regime é considerável. São consideradas como vítimas os mortos ligados à oposição política e os casos de desaparecimentos e ocultação de cadáveres até hoje não localizados.

Cabe destacar também como o processo de abertura política iniciado no governo de Ernesto Geisel (1974) foi marcado pela proeminência das decisões militares em todo o período de transição. Esse processo acarretou problemas graves à democracia, como a não condenação dos militares envolvidos em crimes políticos e a concessão de perdão judicial para figuras das Forças Armadas que estavam envolvidas em crimes contra a humanidade.[2]

Embora o modo como ocorreu a transição política no país tenha trazido sérias consequências até o tempo presente, como o negacionismo dos crimes da ditadura, cabe salientar que essa abertura, ainda que parcial e falha, permitiu a emergência de narrativas que contradizem a lógica negacionista e mostram que, mesmo no período mais violento, a resistência se fez presente, ocorrendo tanto nas áreas urbanas quanto rurais, assim como também no nível cotidiano e do engajamento político-partidário.

É sob esta ótica, de continuar tratando um tema que se constitui como um passado recente que deixou marcas profundas e segue sendo discutido, que apresentamos os artigos que compõem o presente dossiê, destacando a compreensão da produção científica e sua divulgação como importante ferramenta de conscientização e de luta pela manutenção da democracia.

O primeiro artigo, O lirismo e a tragédia de Vera Sílvia Araújo Magalhães pelos olhos do Supremo Tribunal Militar, de autoria de Stephanie Oliveira Afonso, destaca como os processos penais contra mulheres militantes no período foco deste dossiê salientam o caráter de gênero compondo as engrenagens repressivas. A partir da leitura do processo contra Vera Sílvia Araújo Magalhães (1948-2007), a autora mostra como o não enquadramento ao papel socialmente estabelecido de feminilidade à época interferia no tratamento das presas políticas.

O lirismo ao qual Afonso alude se refere à referência a figuras ligadas à literatura e poesia como forma de estabelecer um modelo de ser mulher ideal, que impactava no julgamento recebido, visto que não cumpriam a função de esposas e mães enclausuradas no espaço doméstico. Dessa forma, sublinha-se como a repressão não estava alinhada apenas à oposição política, mas afetava toda e qualquer pessoa que não se enquadrasse nas normas comportamentais e sociais oficialmente defendidas e entendendo esse descumprimento como sinal de uma suposta infiltração comunista que deveria ser extirpada.

O segundo artigo Narrativas, livros e luta – Apontamentos sobre a repressão ao Movimento Estudantil durante a ditadura civil-militar brasileira a partir das obras Orvil (2012) e Combate nas trevas (1987), de Herik Eduardo Sousa Alves, tem como enfoque a atuação do movimento estudantil e as interpretações acerca de sua natureza, tanto pelo viés de pessoas ligadas à militância contra a Ditadura quanto pelos militares conspiracionistas.

Assim, Alves objetiva compreender como as leituras sobre a sua atuação compreenderam as metamorfoses vividas pelo movimento estudantil, destacando que a sua inserção em um contexto de acirramento da repressão ocorrido em meio a uma onda de efervescência política e cultural global que ressoou no Brasil. Ou seja, diante da onda repressiva e impossibilidade de diálogo, essa conjuntura será responsável pela opção pela via armada por muitos de seus integrantes.

Já o artigo de Giovana Mylena Soares, João Goulart e as efemérides do Golpe de 1964: Memória, Historiografia e Contramemória tem como seu objetivo trabalhar sob um duplo eixo. No primeiro plano, aborda o papel das datas comemorativas referentes a 1964 como espaços produtores de interpretações e reinterpretações sobre a natureza do golpe, que dialogam diretamente com as demandas sociais dos recortes espaço-temporais em que se inserem.

No segundo, foca especificamente nos relatos coletados por um jornalista que entrevistou João Goulart imediatamente após a sua ida ao Uruguai e almeja compreender o papel dos seus relatos como uma contramemória, ou seja, um discurso que se opõe às leituras pelos seus opositores e responsáveis pelo Golpe Civil-Militar de 1964 como um líder com anseios autoritários e que desde o início denuncia as articulações feitas por setores ligados ao capital institucional para derrubar um governo legitimamente eleito.

O quarto artigo, de Marcelo Pimenta e Silva, A resistência do MST desde os tempos da Ditadura: A política educacional como formação de uma consciência coletiva, pensa o papel das lutas por terras dentro do panorama de outros movimentos sociais que vinham ganhando espaço a partir da abertura do regime.

Dessa forma, um movimento social é entendido não somente como um movimento contestatório a uma demanda imediata, mas como reação às violências exercidas contra a população rural em nome da manutenção de uma ordem socioeconômica e política alinhada aos interesses do capital internacional. E como movimento de reação a uma ordem desigual e repressiva, o autor destaca o papel da educação popular como ferramenta de construção e fortalecimento de uma identidade coletiva e de classe e que orienta a sua atuação até a atualidade.

No quinto artigo, de Victor P. Menezes, A (r)existência de Dom Paulo Evaristo Arns, o autor está preocupado em analisar a trajetória do arcebispo católico citado, especialmente em seu projeto de resistência à ditadura. Ao narrar a trajetória de Dom Paulo Evaristo Arns, o autor destaca suas ações fundamentais para o afrontamento ao regime militar, como a formação da Comissão de Justiça e Paz e a inauguração do projeto Brasil Nunca Mais.

No sexto artigo, de Maria Aline P. de Oliveira, intitulado “Vozes silenciadas”: a memória de Laura Marques na militância de resistência à ditadura civil-militar em Sergipe, a historiadora busca compreender a militância feminina em um estado brasileiro específico, destacando a importância do estudo sobre as mulheres militantes e a respeito das mulheres no geral – tema que ainda merece a atenção dos historiadores.

No sétimo artigo, de Ramon Nere de Lima, intitulado Feridas abertas: sangues de um etnocídio indígena no passado-presente, o autor se preocupa em compreender o etnogenocídio contra os povos indígenas no Brasil e ainda hoje presente em nossas sociedades. Sua preocupação central está em destacar como o Estado em nosso país reprimiu as comunidades tradicionais, bem como interessa compreender as implicações mais recentes do Marco Temporal. Outrossim, é citado o documentário Reformatório Krenak, onde os indígenas são violentamente reprimidos em seus hábitos e costumes tradicionais. Para desenvolver sua análise, o autor utilizado o conceito foucaultiano de biopoder, que auxilia no estudo do modo como essas populações foram historicamente aniquiladas.

O oitavo artigo, A História pela voz delas: relatos de exiladas na ditadura civil-militar, de Vanessa Calaça, tem como objetivo analisar produções importantes brasileiras acerca das mulheres exiladas brasileiras e as experiências destas a partir da difícil experiência do exílio. Partindo do pressuposto de que existe um silenciamento a respeito dos estudos sobre as mulheres na historiografia, a autora procura dar voz à essas pessoas através do interesse de compreender como elas reconstruíram suas vidas no exterior, durante a ditadura no Brasil.

O nono artigo, A resistência, de Julián Fuks: A narrativa autoficcional e a questão da pós-memória, de Bruna Laura Alípio e José Carlos da Costa, tem como cerne analisar o conceito de pós-memória através da literatura referente às vivências de descendentes daqueles/as que vivenciaram a ditadura na Argentina.

A partir das vivências familiares, além de mostrar os efeitos do terrorismo de Estado no cotidiano, os autores objetivam compreendem o papel da ficcionalização dos eventos como ferramenta para preencher as lacunas deixadas pelo silêncio. Compreende-se, portanto, que o silêncio não significa um simples mutismo, mas é por si só um demarcador dos efeitos da repressão e cuja elaboração verbal nem sempre consegue traduzir eficientemente as marcas da violência. Assim, por meio da ficção, Fuks tenta preencher as lacunas que em uma narração não ficcional não poderiam ser representadas com exatidão.

Referências Bibliográficas

 ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). 5ª ed. Petrópolis: Vozes, 1989.

POLLAK, Michel. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n.10, 1992, p.200-212. Disponível em: <http://www.pgedf.ufpr.br/memoria%20e%20identidadesocial%20A%20capraro%202.pdf>. Acessado em 16 fev. 2022.

______. Memória, Esquecimento, Silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2. n. 3, 1989, p.3-15. Disponível em: <http://www.uel.br/cch/cdph/arqtxt/Memoria_esquecimento_silencio.pdf>. Acessado em 2 abr. 2019.

[1] Expressão utilizada por defensores da Ditadura Civil-Militar para afirmar que o governo militar exercido no intervalo de 21 anos entre 1964 e 1985 não teria cometido, supostamente, crimes graves ou que não matou em quantidades tão grandes em comparação com outras ditaduras que assolaram a região no mesmo período.

[2] Isso se manifestou principalmente no direcionamento dado à Lei da Anistia de agosto de 1979. Uma das principais pautas dos grupos e familiares de militantes políticos, a anistia requerida pelas esquerdas era aquela ampla, geral e irrestrita; porém, a versão aprovada foi aquela que incorporou os chamados “crimes conexos”, o que impossibilitou que os militares fossem punidos por crimes de morte e tortura.

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Edição 29 – Agosto – 2025 https://revistahominum.com.br/2025/08/edicao-29-agosto-2025/ Mon, 11 Aug 2025 11:52:04 +0000 https://revistahominum.com.br/?p=942 E vamos para mais uma edição da revista hominum, desta vez com conteúdo do FOPTIC, um evento realizado em 2024 em Sergipe.

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Dossiê experiências na formação em Ciências Humanas: teorias e práticas

Organizadores:

Prof.ª Dr.ª Diana Mendonça de Carvalho (DGEI/GEPRU/UFS e PPGEO/UESB)

Prof. Dr. Carlos Alberto de Vasconcelos (DED/FOPTIC/PPGED/PPGECIMA/UFS)

O Dossiê experiências na formação em Ciências Humanas: teorias e práticas é resultado de um conjunto de trabalhos acadêmicos apresentados no I Colóquio Internacional Interfaces entre Educação Básica, Graduação e Pós-Graduação e I Simpósio do Grupo de Estudos e Pesquisas em Formação de Professores e Tecnologias da Informação e Comunicação (FOPTIC). Esses eventos ocorreram na Universidade Federal de Sergipe (UFS), em 2024, reunindo diversos pesquisadores das áreas do conhecimento que integram a condição da Educação brasileira e internacional.

Diante da expressão de trabalhos e em função do empenho disponibilizado por diversos pesquisadores que atuaram na condição de pareceristas, valida-se a qualidade de um evento com magnitude e respaldo socioprofissional para a Educação Básica brasileira. Desse modo, os textos subsequentes merecem crédito ao integrar diversos títulos que compõem a lógica do ensino em diversas áreas do conhecimento, em específico, considerando a lógica da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as Ciências Humanas.

Esse mérito decorre da importância que precisa ser salientada para a Educação, no processo formativo de nossa juventude e na formação contínua de nossos professores. Isso, sem desconsiderar a base que trazemos de vivências sociais e espaciais, prezando por um ensino que integre essa bagagem socialmente construída com conhecimentos que fortalecerão a condição de desenvolvimento da sociedade. Nesse sentido, a Educação deve ser analisada como um processo em constante (re)construção, embasado em contextos geo-históricos e políticos ao longo da evolução social, que influenciam, mediante relações de poder e de ideologia, o que será transmitido no processo formativo escolar.

Ato contínuo, as temáticas discorridas nos artigos a seguir envolvem linhas de pesquisa distintas, mas complementares, que perpassam experiências, percepções, metodologias e formação docente, sem deixar de tocar em temas caros à Educação brasileira, como condições de gênero, raça, idade e até mesmo inclusão. Desse modo, o dossiê traz partes de pesquisas e estudos desenvolvidos por estudantes e pesquisadores de diversas instituições de ensino, demonstrando o poder que um espaço de discussão como o Grupo de Estudos e Pesquisas em Formação de Professores e Tecnologias da Informação e Comunicação (Foptic) pode contemplar na lógica de formação inicial e continuada, com referência a esta publicação.

Dessa forma, o dossiê, com 13 artigos, pretende contribuir para a compreensão das transformações que têm ocorrido na Educação brasileira, não só em escala local, mas também nacional, haja vista os textos contemplarem diversos espaços-tempos de pesquisa, apreciando evidências empíricas, trabalhadas em consonância teórica com vivências em unidades escolares ou na formação acadêmica.

Sendo assim, respaldamos os trabalhos aqui expostos, vislumbrando as transformações ou mesmo as mudanças socioespaciais e teóricas impostas à Educação, mediante a atuação de um Estado neoliberal que preza pelo enxugamento de programas não só sociais, mas principalmente educacionais. Por isso, fixamos nosso apelo quanto à necessidade de reflexões mais profundas sobre a Educação Nacional, que primem por ações e políticas públicas compromissadas com o desenvolvimento de uma sociedade livre e democrática, capaz de gerir suas próprias contradições.

Sergipe, outono de 2025

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Edição 28 – Edição de Maio – 2025 https://revistahominum.com.br/2025/05/edicao-28-edicao-de-maio-2025/ Sat, 31 May 2025 18:26:54 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=908 Baixe a edição 28 da Revista Hominum

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APRESENTAÇÃO 

TELEVISÃO, TELENOVELA E INTERNET: NOVAS PERSPECTIVAS E METODOLOGIAS NA PESQUISA HISTÓRIA 

 

O dossiê Televisão, Telenovela e Internet: novas perspectivas e metodologias na pesquisa histórica reúne uma seleção de artigos que dialogam com os desafios e as possibilidades do uso de mídias audiovisuais e digitais como fontes históricas. Em um contexto em que televisão, telenovela, internet e, também, o cinema ocupam papéis centrais na construção de narrativas sociais e culturais, este conjunto de textos propõe reflexões interdisciplinares voltadas à inovação metodológica na historiografia contemporânea. 

Os trabalhos aqui apresentados abordam diferentes aspectos da intersecção entre mídia e história, evidenciando como programas do audiovisual (telenovelas, minisséries, séries e filmes) e conteúdos digitais não apenas refletem realidades socioculturais, mas também atuam como agentes na conformação de identidades, memórias e discursos. 

Nesse sentido, abrimos o dossiê com o artigo Roque Santeiro: uma novela como objeto de estudo, de Mara Rúbia Gusson Vittorazzi e Luiz Eduardo Pinto Barros, que analisa a telenovela homônima como uma rica fonte para a pesquisa histórica. O trabalho discute como a trama, exibida entre 1985 e 1986 pela Rede Globo, transcende o mero entretenimento ao incorporar críticas sociais, políticas e culturais do Brasil no período de transição da ditadura militar para a democracia. 

Os autores destacam o potencial da teledramaturgia como instrumento de análise histórica, apontando que os elementos narrativos, técnicos e estéticos do gênero melodramático permitem apreender representações socialmente construídas e contextos sociopolíticos. A obra também dialoga com debates teóricos sobre o uso de fontes audiovisuais na historiografia, enfatizando a necessidade de uma abordagem crítica e interdisciplinar. A análise de Roque Santeiro revela, assim, a força da telenovela como veículo de reflexão sobre o Brasil, sua cultura popular e seus processos históricos. 

Em seguida, temos o artigo Teledramaturgia e ensino de História do Brasil: aprendendo sobre o cangaço com a novela Mandacaru (1997-1998), de Bruno José Yashinishi, que propõe o uso pedagógico da telenovela como ferramenta no ensino de História. A obra, exibida pela extinta Rede Manchete, é analisada como recurso para trabalhar o tema do cangaço com estudantes do ensino básico, aproximando-os de forma crítica e envolvente desse fenômeno histórico. Ambientada no sertão baiano, Mandacaru mistura elementos ficcionais e históricos, destacando conflitos entre cangaceiros, coronéis e forças oficiais, além de apresentar personagens complexos e dilemas sociais que refletem o Brasil daquela época. 

O autor defende que produções audiovisuais como Mandacaru podem funcionar como fontes secundárias no processo educativo, incentivando o pensamento crítico e a compreensão de como a mídia contribui para a construção da memória histórica. Além de promover práticas pedagógicas que incluem análise comparativa entre ficção e realidade, debates em sala de aula e atividades criativas — como redações, encenações e produções audiovisuais.  

Na sequência temos o artigo O uso de minisséries como recurso pedagógico: a Revolução Farroupilha a partir d’ A Casa das Sete Mulheres, de Jéfferson Balbino, que investiga o potencial educativo da minissérie da TV Globo (2003), adaptada do romance homônimo de Letícia Wierzchowski. O autor analisa como a obra pode ser integrada ao Ensino de História, articulando literatura, audiovisual e historiografia. A partir do contexto da Revolução Farroupilha, a narrativa se concentra nas vivências das mulheres da elite gaúcha, destacando suas emoções, dilemas e papel social durante o conflito. A abordagem permite repensar a História a partir de uma perspectiva de gênero, promovendo a visibilidade feminina em um evento tradicionalmente contado sob o viés masculino e militar. 

O artigo ressalta que o uso de minisséries na sala de aula, quando mediado criticamente pelo professor, amplia a capacidade dos alunos de refletirem sobre as representações históricas na mídia e a construção da memória coletiva. Balbino propõe atividades pedagógicas como análises comparativas entre a ficção e documentos históricos, produção de resenhas e debates sobre identidade, gênero e narrativa. Embora a obra dramatize e romantize os acontecimentos, ela se mostra uma ferramenta eficaz para despertar o interesse dos estudantes e desenvolver competências analíticas, desde que seu conteúdo seja confrontado com outras fontes e situado no tempo histórico com rigor e criticidade.  

No artigo Narrativas sobre a Ditadura Militar: o uso de telenovelas como fonte histórica, de Giovana Mylena Silva Soares nos mostra como a telenovela Amor e Revolução (2011), exibida pelo SBT, emerge como uma tentativa significativa de reconstruir a memória da Ditadura Militar no Brasil, ao mesclar ficção dramática com depoimentos reais de vítimas e participantes do regime. Apesar de suas limitações como produto comercial e das contradições internas da emissora, a obra trouxe ao horário nobre discussões sensíveis sobre repressão, resistência e direitos humanos, contribuindo para democratizar o debate histórico e questionar narrativas revisionistas. 

A partir do estudo de Soares vemos que a telenovela Amor e Revolução, além de demonstrar o potencial do audiovisual como ferramenta historiográfica e espaço de disputa simbólica, também é capaz de promover reflexões críticas e ampliar o acesso à história de forma mais inclusiva e acessível. 

No texto Em Nome de Santo Dias: representações do uso político da religião em Saramandaia, Osorio Vieira Borges Junior mostra-nos como foi – no remake da obra de Dias Gomes – resgatado elementos do realismo fantástico para abordar questões políticas contemporâneas, transformando a disputa pelo nome da cidade em metáfora das tensões entre tradição e mudança.  

Devido ao fato de a trama audiovisual reinterpretar a religiosidade popular dentro de um contexto de disputa ideológica, a telenovela em questão evidencia a dinâmica entre ortodoxia e ortoprática, mostrando que práticas religiosas são constantemente reinventadas de acordo com os contextos sociais e políticos.  

Logo após temos o artigo Telenovela e Gênero: a performatividade de Nonato/Elis em A Força do Querer, de Lucas Matheus Araujo Bicalho que discute a trajetória do personagem Nonato, que se transforma em Elis e, conseguintemente, propõe uma potente reflexão sobre identidade de gênero e performatividade. 

Amparado nas teorias de Judith Butler, Bicalho mostra que a telenovela, escrita por Glória Perez, consegue demonstrar aos telespectadores que o gênero não é fixo, mas performado e constantemente reeditado, o que confere visibilidade e complexidade à experiência de pessoas trans em um veículo de grande audiência como ainda é a televisão aberta. 

No artigo Televisão e conflito armado na Colômbia contemporânea: a representação dos comandantes guerrilheiros nas telenovelas da Caracol Televisión, Priyanka Freire Dhingra analisa como as telenovelas produzidas pela Caracol Televisión, entre 2016 e 2024, representaram os comandantes guerrilheiros em um contexto pós-acordo de paz com as FARC. A autora destaca o uso recorrente de arquétipos negativos para retratar esses personagens, associando-os à perversidade, violência e irracionalidade, como ocorre nas novelas La Niña (2016); Arelys Henao: Canto para No Llorar (2022) e Devuélveme la Vida (2024). Essas construções estereotipadas, muitas vezes sensacionalistas, reforçam a deslegitimação do processo de paz e colaboram para a difusão de uma visão simplificada e maniqueísta do conflito. 

Dhingra argumenta que, ao recorrer a estratégias narrativas baseadas em choque e antagonismo, essas telenovelas contribuem para fortalecer discursos conservadores e criar um “outro” demonizado, o que dificulta a compreensão histórica do conflito colombiano. Embora sejam obras de ficção, sua ancoragem em eventos e personagens “baseados em fatos reais” dá à narrativa um verniz de veracidade que impacta diretamente o imaginário coletivo. Com isso, a televisão deixa de apenas entreter e passa a atuar como ferramenta ideológica, moldando percepções sociais e políticas em torno da guerra e da paz. 

No artigo Direção equivocada prejudica autor de Mania de Você e explica rejeição à novela, Claudino Mayer analisa os motivos da recepção negativa da telenovela Mania de Você (2024/2025), escrita por João Emanuel Carneiro. O autor argumenta que a direção artística, conduzida por Carlos Araújo, foi decisiva para a baixa audiência da produção, ao adotar escolhas estéticas que destoaram do padrão tradicional da teledramaturgia brasileira. O uso excessivo de close-ups e a ausência de subtramas bem desenvolvidas teriam causado estranhamento, dificultando a identificação do público com os personagens e com a trama principal. 

Mayer também destaca que a narrativa ágil e fragmentada, embora inovadora, comprometeu o entendimento geral da história, afastando tanto o público habitual quanto o telespectador ocasional. A falta de personagens cativantes e de ambientações externas, somada à confusão sobre quem seriam os heróis e vilões da história, reforçou a rejeição à telenovela. Ao ignorar convenções clássicas do melodrama e da linguagem televisiva, Mania de Você acabou se distanciando da tradição que consagrou João Emanuel Carneiro (mesmo autor da telenovela de sucesso Avenida Brasil, de 2012), comprometendo sua capacidade de engajar emocionalmente a audiência. 

Na sequência, temos o artigo Netnografia como metodologia científica para pesquisa histórica nas redes sociais: o TikTok como estudo de caso, Gabriel Antonio Butzen e Tereza M. Spyer Dulci exploram a aplicação da netnografia — adaptação da etnografia para ambientes digitais — como ferramenta metodológica para estudar a produção e o consumo de narrativas históricas no TikTok. Os autores argumentam que, diante da ascensão da História Pública Digital, a plataforma se destaca como um espaço estratégico tanto para a disseminação do conhecimento histórico quanto para o combate à desinformação. A netnografia, ao permitir a imersão e a análise das interações online, revela-se uma alternativa eficaz para compreender como o público se engaja com conteúdos históricos no ambiente digital. 

O estudo enfatiza os desafios éticos e técnicos dessa abordagem, como a necessidade de consentimento dos participantes e a dificuldade de acessar dados internos dos perfis. Ainda assim, Butzen e Dulci demonstram que, ao observar aspectos como o engajamento, frequência de postagens e estratégias narrativas dos criadores de conteúdo, é possível mapear práticas de ensino e divulgação de história adaptadas à lógica e ao algoritmo do TikTok. Assim, o artigo propõe um caminho metodológico robusto e atualizado para pesquisadores interessados nas novas formas de circulação do saber histórico em tempos de redes sociais e cultura digital. 

Ainda tendo a internet como o cerne das fontes históricas, temos o estudo de André Wesley Barbosa Oliveira: Internet e pesquisa histórica: possibilidades a partir do portal Memórias da Ditadura que discute o potencial do portal digital como ferramenta para estudos sobre a ditadura militar no Brasil. A plataforma, idealizada pelo Instituto Vladimir Herzog, destaca-se por sua acessibilidade, diversidade de fontes e abordagem multimídia, reunindo depoimentos, documentos oficiais, materiais didáticos e análises críticas. O autor enfatiza que o site permite não apenas o acesso remoto a fontes históricas, mas também favorece práticas interdisciplinares e a inserção do debate sobre a memória da repressão em diferentes níveis educacionais, democratizando o saber histórico. 

Contudo, Oliveira também aponta desafios que acompanham o uso dessas tecnologias/fontes digitais, como a efemeridade dos conteúdos digitais, os riscos de descontinuidade e a necessidade de curadoria criteriosa. Ele alerta que a história digital exige uma postura metodológica renovada, capaz de lidar com os “usos políticos do passado” e com os embates contemporâneos por memória e verdade. Assim, embora a internet amplie os caminhos da pesquisa histórica, ela impõe ao pesquisador uma vigilância crítica sobre os meios, formatos e contextos em que o conhecimento é produzido e disseminado. 

No artigo Tulsa sob a imagem e o som: usos do Massacre de Tulsa nas séries de televisão Watchmen (2019) e Lovecraft Country (2020), William Cândido Mengue analisa como o massacre racial ocorrido em Tulsa em 1921 é reinterpretado por meio da linguagem audiovisual nas séries contemporâneas. O autor evidencia como essas produções constroem narrativas que vão além da representação factual, incorporando elementos do trauma transgeracional, da fantologia e da acumulação temporal para explorar as persistências do racismo sistêmico. Através das trajetórias de personagens como Angela Abar e Atticus Freeman, as séries demonstram que o passado violento de Tulsa não está enterrado, mas ecoa no presente, moldando subjetividades e relações familiares. 

Mengue argumenta que essas séries utilizam o potencial estético e narrativo do audiovisual para desestabilizar a linearidade histórica tradicional, abrindo espaço para outras formas de conhecimento histórico. Watchmen e Lovecraft Country operam como dispositivos de memória, onde fantasmas do passado retornam para reivindicar espaço no presente e projetar possíveis futuros. Ao situar o massacre de Tulsa como um marco não resolvido da história americana, essas obras evidenciam a importância de se pensar o audiovisual como fonte legítima e potente para o fazer historiográfico no século XXI. 

Logo em seguida, temos o artigo: As contribuições dos estigmas do HIV/AIDS ao público homossexual e trans no cinema americano (1990–1995), no qual Antonio Eduardo Oliveira de Lima analisa como produções cinematográficas norte-americanas representaram a epidemia de AIDS e suas associações com identidades marginalizadas. Filmes como Paris is Burning (1990), Philadelphia (1993) e Kids (1995) são examinados como documentos históricos que, além de retratar o sofrimento e a exclusão, também perpetuaram — ou tensionaram — os estigmas sobre homossexualidade, transexualidade e HIV. As narrativas revelam o impacto do preconceito social e da negligência institucional, revelando a AIDS como um marcador de vulnerabilidade atravessado por questões de classe, gênero e raça.  

Lima destaca que, embora o cinema contribua para a visibilidade das questões ligadas à epidemia, ele também pode cristalizar representações estigmatizantes, especialmente ao retratar corpos dissidentes como portadores de uma “doença moral”. Através da análise histórica e cultural das obras, o autor propõe uma crítica às formas como o discurso médico, midiático e político colaborou para a marginalização das populações LGBTQIAPN+. Ao mesmo tempo, reconhece o papel desses filmes na construção de uma memória coletiva sobre a crise do HIV/AIDS, tornando-se ferramentas importantes para a crítica social e a sensibilização pública até os dias de hoje. 

E, por fim, ainda tratando de obras cinematográficas como fontes de pesquisas históricas temos o artigo Enterrar e Exumar: uma leitura do curta-metragem Torre (2017) como fonte historiográfica, de Venícios Costa Soares que propõe uma análise sensível da animação dirigida por Nádia Mangolini como ferramenta de resistência e memória sobre a ditadura civil-militar brasileira. A partir dos testemunhos dos filhos de Virgílio Gomes da Silva — considerado o primeiro desaparecido político do regime — o curta reconstrói uma narrativa fragmentada por traumas, silêncios e perdas. O articulista evidencia como o audiovisual, articulado com a história oral e a psicanálise, se transforma em instrumento potente de denúncia, rompendo com os apagamentos impostos pelos discursos oficiais e resgatando subjetividades silenciadas. 

Soares mostra que, ao reconstruir afetivamente a imagem do pai por meio das memórias dos filhos, Torre contribui para o processo coletivo de elaboração do luto e da justiça histórica. O artigo destaca que o trauma da ditadura não foi encerrado com a Lei da Anistia e que a ausência de responsabilização pelos crimes do regime continua a ferir famílias e a sociedade brasileira. Assim, o curta-metragem não apenas rememora a violência, mas também escava os escombros do passado autoritário, reafirmando – mesmo no formato de animação – que testemunhar é um ato político de resistência contra o esquecimento. 

Como demonstrado ao longo deste dossiê, as mídias audiovisuais e digitais — da telenovela ao TikTok, do cinema à animação — constituem hoje fontes historiográficas relevantes e complexas, capazes de provocar novas perguntas, resgatar memórias silenciadas e desafiar os limites tradicionais da escrita da história. As abordagens aqui reunidas revelam o potencial transformador dessas linguagens, não apenas como espelhos da sociedade, mas como agentes ativos na produção de sentidos sobre o passado e o presente. Ao ampliar as possibilidades metodológicas e teóricas da pesquisa histórica, este dossiê convida os leitores da Revista Hominum a refletirem sobre as múltiplas formas de narrar, problematizar e (re)construir a história no tempo presente. 

 Boa leitura! 

 Prof. Dr. Jéfferson Balbino 

(Universidade Federal da Paraíba – UFPB)

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Edição 27 – Edição de Setembro – 2024 https://revistahominum.com.br/2024/09/edicao-27-edicao-de-setembro-2024/ Mon, 30 Sep 2024 18:28:29 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=817 Baixe a Edição 2024.2 da Revista Hominum

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EDITORIAL

PEDAGOGIA CRÍTICA: EPISTEMOLOGIA, POLÍTICAS E PRÁTICAS

 

Prof. Dr. Roberto Araújo da Silva Vasques Rabelo

Centro Universitário Lusíada (UNILUS) – Universidade de São Paulo (USP)

Prof.ª Dr.ª Maria Amélia do Rosário Santoro Franco

Universidade Católica de Santos (UNISANTOS)

 

As vertentes críticas em Pedagogia têm fundamentado estudos e debates no campo educacional desde meados do século XX. Com procedências vinculadas ao aspecto emancipatório do paradigma moderno, isto é, ao marxismo e suas decorrências, a Pedagogia Crítica configura-se como importante recurso de resistência e enfrentamento às desigualdades sociais presentes no devir existencial humano e no sistema capitalista contemporâneo.

A práxis da Pedagogia Crítica integra a consciência e a prática da educação como recursos para a transformação da ideologia dominante que oprime classes sociais subalternizadas. Portanto, essa perspectiva epistemológica opera práticas educativas baseadas na problematização de contextos histórico-culturais com vistas a modificá-los, na intenção de produzir justiça social e cognitiva.

Este dossiê reúne trabalhos que discutem princípios epistemológicos, práticas pedagógicas e políticas educacionais lastreados na Pedagogia Crítica. Os artigos aqui reunidos pretendem contribuir com o desenvolvimento da Educação, a ampliação do debate epistemológico sobre Pedagogia e Pedagogia Crítica, assim como difundir potencialidades da práxis pedagógica crítica em instituições escolares.

No primeiro texto, intitulado Pedagogia Crítica: princípios epistemológicos e políticos, de nossa autoria, buscamos descrever as bases epistêmicas e políticas da Pedagogia Crítica, apresentando seus elementos constitutivos e suas finalidades emancipatórias.

O segundo artigo, O direito de ser e se construir humano: formando por uma epistemologia crítica freireana, de Guadalupe Mota e Simone Nogueira, busca evidenciar, a partir de um processo formativo docente com caráter pedagógico-crítico, as possibilidades de reação à lógica neoliberal na Educação.

No terceiro estudo, intitulado A Pedagogia Crítica na perspectiva de Maria Amélia do Rosário Santoro Franco, Mary Gracy Lima e Saray Marques indicam subsídios da e para a Pedagogia Crítica, a partir de uma análise da obra de Maria Amélia Santoro Franco.

Em Teoria Crítica e Pedagogia Crítica sob a ótica de Theodor Adorno, Walter Benjamin e Paulo Freire, Gabriel Jorge Rodrigues de Souza e Aldo Lima Silva discutem, de maneira ensaística, articulações entre a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt e as bases da Pedagogia Crítica freireana, fundamentos da práxis pedagógica socialmente engajada e emancipatória.

O quinto artigo, Formação Inicial em Pedagogia: o aprender a ensinar em sua relação com as práticas pedagógicas a partir da Pedagogia Crítica, cuja autoria é de Thayná Guedes Assunção Martins e João Antonio de Sousa Lira, traz uma análise de como a Pedagogia Crítica pode contribuir no processo de aprender a ensinar mediante a produção de práticas pedagógicas que transcendam a ingenuidade.

No sexto texto, A rotina pedagógica e a inibição da infância: curiosidade epistemológica à míngua, Hélio da Guia Alves Junior e Silvia Cinelli Quaranta buscam identificar prejuízos oriundos da mecanização da rotina pedagógica, com a pretensão de compreender a diferença entre rotina e ritual, e refletir sobre as possibilidades do ritual pedagógico como um instigador da curiosidade epistemológica, um fundamento da Pedagogia Crítica.

O sétimo artigo, Conflito Pedagógico: dispositivo e possibilidade em outra pedagogia, das autoras Leiny Leite e Lisley Gomes da Silva, provoca reflexões sobre o conceito de conflito, a partir de pressupostos da Pedagogia Crítica freireana.

Em Educação antirracista e mídias digitais na EJA: caminhos de esperança em tempos de desencanto, o oitavo texto deste dossiê, Valmir Jhonatta Barbosa e Rosângela Rodrigues dos Santos analisam a integração entre mídias digitais e práticas pedagógicas críticas e antirracistas no contexto da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O nono estudo deste dossiê, de autoria de Larissa Lima dos Santos e Silvia Cinelli Quaranta, tem como título Crianças refugiadas: o pertencimento por meio da educação e apresenta um importante relato de experiência alicerçado em fundamentos críticos emancipatórios sobre a educação de crianças refugiadas do Afeganistão.

O último artigo que compõe este dossiê, Princípio da Pedagogia Crítica como possibilidades de formação e práticas pedagógicas no processo de inclusão escolar no município de Cajati/SP, cuja autoria é de Olga Rosa Koti, explora potencialidades de formação docente lastreadas na Pedagogia Crítica, no contexto de um município pertencente a uma das regiões mais pobres do Estado de São Paulo.

Em suma, acreditamos no potencial da Pedagogia Crítica como recurso fundamental para a produção de uma educação progressista e para a superação de desigualdades, regimes de opressão e autoritarismos. Esperamos que este dossiê possa sensibilizar e congregar novos estudantes, docentes, pesquisadores e quaisquer interessados nessa temática, para o desenvolvimento de uma sociedade global justa, a partir de práticas pedagógicas problematizadoras, politicamente engajadas e socialmente referenciadas.

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Edição 26 – Edição Julho – 2024 https://revistahominum.com.br/2024/06/edicao-26-edicao-julho-2024/ Fri, 21 Jun 2024 02:37:04 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=792 Baixe a Edição 2024.01 da Revista Hominum

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EDITORIAL

 

Tallita Stumpp

Universidade Federal do Rio de Janeiro

tallitastumoreira@gmail.com

Leandro Couto Carreira Ricon

Universidade Católica de Petrópolis – Faculdade EnsinE

leandro.ricon@ucp.br

 

Todos nós acompanhamos, ao longo dos últimos anos, os sucessivos ataques à educação brasileira e, sobretudo, à escola pública. Os confrontos que se travam não visam apenas um projeto educacional, mas um projeto de sociedade e, embora a democratização do acesso à educação tenha significado historicamente um avanço, as atuais configurações das políticas públicas neste âmbito lembrando-nos de que a construção de uma educação verdadeiramente democrática ainda está em processo e disputa. No entanto, as políticas públicas não se resumem à letra da lei, mas estão intimamente relacionadas com as práticas educativas, com os sujeitos nelas envolvidos, e com as instituições educacionais nas quais elas se desenvolvem. É a partir dessa relação dinâmica e complexa que o dossiê Políticas Públicas, Instituições Educacionais e Práticas Educativos reuniu reflexões e discussões plurais acerca do tema, buscando a compreensão das complexas questões destes processos.

O primeiro artigo, POLÍTICAS PÚBLICAS CURRICULARES: A QUESTÃO DA BNCC, de Luciana da Costa Itho e Thiago von Rondon Duarte, aborda a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) no contexto das políticas públicas educacionais, considerando o histórico de reformas educacionais no Brasil, enquanto Alessandro Furtado Pacheco e Antonio Flavio Barbosa Moreira, em DESAFIOS E TRANSFORMAÇÕES NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA: QUESTÕES ATUAIS, discutem as mudanças curriculares empreendidas pela Lei no 13415/2017 e a nova BNCC especificamente no Ensino Médio, demonstrando o alinhamento dessas mudanças com uma racionalidade neoliberal de valorização individual. Já o artigo LEGISLAÇÕES E PARADIGMAS SOBRE A FORMAÇÃO CONTINUADA DE PROFESSORES: PONTOS FOCAIS ACERCA DO ENSINO PÚBLICO DE PETRÓPOLIS- RJ, de autoria de Luiza Martins Varricchio, trata das políticas de formação continuada de professores e da forma que esta é fomentada pelo poder público, especificamente no caso da cidade de Petrópolis, localizada na região serrana do estado do Rio de Janeiro.

Alan Marques de Pinho e Luiza Loubak de Souza, em INTERFACES ENTRE UNIVERSIDADE E ESCOLA: UM ENSAIO SOBRE O ETHOS ACADÊMICO E A PRÁTICA PEDAGÓGICA, discutem questões que permeiam a relação entre o saber universitário e as práticas pedagógicas de ensino, abordando as relações entre a formação docente sobreposta pelo conhecimento científico e a prática pedagógica, enquanto autêntico saber docente. Esta discussão encontra diferentes fios de diálogos possíveis com o texto de Márcio Vinícius Delgado e Antonio Flavio Barbosa Moreira, REFLEXÕES SOBRE EDUCAÇÃO, IDENTIDADE E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL, uma vez que propõe uma discussão que ressalta a importância da relação entre pesquisa narrativa e os estudos pedagógicos e curriculares, enfatizando o papel da metodologia de pesquisa para a produção de reflexões sobre a construção de identidades, valores e transformações sociais, permitindo o emergir de vozes marginalizadas.

O sexto texto, ESTRATÉGIA E TÁTICA: REFLEXÕES SOBRE O AMBIENTE EDUCACIONAL A PARTIR DA OBRA DE MICHEL DE CERTEAU, de autoria de Luiz Henrique Bechtlufft Bade, tece uma aproximação dos conceitos de ‘estratégia’ e ‘tática’, a partir do pensamento de Michel de Certeau, em busca de compreender as dinâmicas da relações estabelecidas no ambiente educacional, enquanto Aparecida Bassoli Machado, em ALTERIDADE NOS ANOS FINAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL, também parte do pensamento de De Certeau para discutir a alteridade na sala de aula, considerando a influência das relações estabelecidas no ambiente escolar no processo de ensinoaprendizagem. Trazendo igualmente a discussão sobre a relação entre alteridade e educação, Cainan Espinosa Gimenes, em A PRÁTICA EDUCACIONAL ENQUANTO ABERTURA PARA O OUTRO EM EMANUEL LEVINÁS, relaciona a obra e pensamento de Emanuel Levinás com a prática educacional, partindo de uma abordagem filosófica. Já Leonardo de Carvalho, em VÍNCULOS AFETIVOS NA ESCOLA – UMA CONVERSA IMPORTANTE, reflete sobre os afetos e a importância do fortalecimento das relações criadas na sala de aula.

Focalizando as práticas educativas em matérias específicas da educação básica, NOVOS OLHARES PARA A DISCIPLINA DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA DE PETRÓPOLIS, TURISMO E EDUCAÇÃO PARA O TRÂNSITO, de autoria de Frederico Ferreira de Oliveira, Discute o processo de repensar a proposta curricular de História e Geografia,Turismo e Educação para o Trânsito em Petrópolis, região serrana do estado do Rio de Janeiro,com base no lugar social e na multiculturalidade; enquanto Leonardo Augusto dos Santos Costa, em ENSINO DE HISTÓRIA NA ERA DIGITAL: REDES SOCIAIS E PRÁTICAS EDUCACIONAIS, apresenta reflexões acerca da integração das redes sociais na educação e das possibilidades de dinamização do ensino de História e da popularização de seu conhecimento.

Por último temos o texto de Ana Clara do Carmo Clemente, ENSINO ANARQUISTA: REFLEXÕES E CONTRIBUIÇÕES, no qual a autora analisa as teorias e práticas anarquistas no campo da educação a partir de uma síntese dos pensamentos de seus principais intelectuais.

Desejamos aos leitores uma boa leitura e que as reflexões propostas, partilhando da compreensão de que é preciso anunciar denunciando e denunciar anunciando, possam possibilitar outras mais.

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Edição 25 – Dezembro – 2023 https://revistahominum.com.br/2023/12/edicao-25-dezembro-2023/ Sun, 24 Dec 2023 13:16:27 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=713 Baixe a Edição 2023.2 da Revista Hominum

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VINTE ANOS DA LEI Nº 10.639 DE 2003: CENÁRIOS, PERSPECTIVAS E POLÍTICAS EDUCACIONAIS

 

Este dossiê tem como perspectiva analítica, discursiva e prática a matéria da cultura afro-brasileira, com ênfase no respeito à diversidade, avanços, desafios e possibilidades da Lei nº 10.639/2003, destaca-se a relevância que a Lei traz para os alunos da educação básica, tanto quanto sua importância para formação cidadã dos discentes e mais conscientes da diversidade que nos cerca, operando a respeito das contribuições históricas, políticas, educacionais e culturais afro-brasileiras.

Frente a esta justificativa pontuamos a importância de que sejam observados os desafios dos 20 anos da promulgação da Lei, assim encontramos a vigência das incertezas e novos parâmetros que visionamos na abertura do debate no sentido consolidado das construções que definiu o quadro materializada das necessidades da promulgação da Lei, que se circunscreve na sua extrema importância histórica, social, política e epistêmica do debate e como na atualidade pensamos e encontramos a formação social de nossas crianças, adolescentes e jovens.

O empenho na leitura deste dossiê deve ser permeado pela bonificação das realidades de cada leitor que passará observar as reflexões e as mudanças tanto quanto as incertezas do tempo corrente, que nos insere em contextos cada vez mais diversificados e com elaboração de novas necessidades coisificadas e, por isso, novas lutas se inserem para reconhecimento das necessidades das políticas afirmativas, como também voltar às origens para nos fazer problematizar condições sociais que unifica, separa e nos distingue, bem como no âmbito reparativo da ação e efeito das políticas educacionais.  Por outro lado, os artigos presentes nesse dossiê já carregam consigo a atualização de dizeres materiais do que é posto nesses 20 anos de promulgação.

O aniversário da Lei já traz consigo os apontamentos das estruturas de poder que por justaposição oferecem uma análise qualificada para falarmos de racismo estrutural, formação de professores, população negra, resistência política, nossa história brasileira, democracia, política educacional, inclusão social, colonialismo, inclusão social e, por fim, como esteio para todo o debate seja de forma evidenciada ou nas entrelinhas do debate sobre a Educação e o tema.

A união das mais diferentes perspectivas é o encontro com as necessidades, tanto quanto a materialização que transforma os caminhos sociais, políticas, educativos, econômicos e ambientais na esfera dos enfrentamentos, lutas e as incertezas do tempo presentes na consolidação do capital cada vez mais diretivo como fenômeno do consumo e na sustentação de necessidades urgentes e descabidas de interesses do bem comum.

Comemorar os 20 anos da Lei 10.639/2003 é comemorar a luta contra um Brasil desigual, racista e excludente que nos posiciona materialmente para uma formação que seja capaz de enfrentar mudanças e as incertezas advindas de marcas indeléveis na história do povo brasileiro, que em muitos casos estão adormecidas e algum momento será lugar de debate e de resistir.

Por conseguinte, que não deixemos de pensar: Quais as lutas e resistência iremos travar para uma educação inclusiva, não racista e capaz de formar cidadão sobre a tutela da análise e não aceitação da materialidade das injustiças? Sejamos atentos aos movimentos sociais e políticos que nos fazem lutar hoje e fará amanhã!

Desejamos que seja uma leitura profícua, atenta e reflexiva!

Dr. Alexandre Ferreira (UFPB)

Dra. Larissa C. de Albuquerque

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Edição 24 – Janeiro – 2023 https://revistahominum.com.br/2022/12/edicao-24-janeiro-2023/ Sat, 31 Dec 2022 20:15:17 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=657 Baixe a Edição 2023.1 da Revista Hominum

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ENTRELAÇAMENTOS DE PRÁTICAS E FORMAÇÃO DOCENTE: POLÍTICAS, CURRÍCULOS, LINGUAGENS E CULTURAS

 

A educação formal e a escola cumprem função de socialização e incorporação do indivíduo aos padrões culturais da sociedade onde esse indivíduo se insere. Essa função é cumprida através de uma série de metodologias, seleções, normas, projetos, organizações curriculares, formações, legislações, entre tantos outros elementos, que trazem em si concepções ideológicas e políticas que estão colocadas naquele espaço-tempo histórico. Ou seja, para cada momento histórico poderemos distinguir elementos característicos que vão influenciar a educação, a escola, os professores, e os estudantes.

Uma vez que a educação e a escola são produtos culturais de seu tempo, são historicamente construídos, eles abrigam em si as marcas das concepções de educação, de ensino, de sociedade, bem como ideologias e formas de pensar/agir considerados adequados naquele espaço-tempo cultural. Esse percurso de construção leva para a educação e para a escola elementos sociais importantes de preservação do patrimônio cultural. Porém, essa construção também leva elementos questionáveis para dentro da escola, como segregação, racismo, heteronormatividade e outros, que deveriam ser problematizados em sua permanência e reprodução.

O exercício da docência e a formação do professor também são tributários da construção sócio-histórico-cultural, lidando tanto com a preservação do patrimônio cultural quanto com os elementos de reprodução da sociedade. António Nóvoa (1991, p. 441) coloca que “a profissão docente está intimamente articulada com uma prática e um discurso sobre as finalidades e os valores da sociedade. Os professores […] são portadores de uma mensagem cultural e social e desempenham uma profissão carregada de intencionalidade política e ideológica”.

Este dossiê intitulado “Entrelaçamentos de práticas e formação docente: políticas, currículos, linguagens e culturas”, parte desta concepção – da educação como um processo contínuo de construção/desconstrução/reconstrução mediado pelos intervenientes sócio-histórico-culturais – e pretende abrir um espaço de discussão sobre políticas, currículos, linguagens e culturas explicitadas ou subsumidas em situações, espaços, documentos, propostas, metodologias, formações e discursos.

Foi organizado com textos selecionados entre autores que têm como ponto de contato a formação na Universidade Federal do Mato Grosso do SUL (UFMS) e a vinculação a dois Grupos de Pesquisa existentes nessa Universidade: o Grupo de Estudos e Pesquisas Currículo, Cultura e História (GEPEH/UFMS), que tem como líderes as professoras Maria Aparecida Lima dos Santos e Maria de Fátima Xavier da Anunciação de Almeida, ambas da Faculdade de Educação (FAED/UFMS); e o Grupo de Estudo e Pesquisa sobre Formação e Práticas Docentes (FORPRAT/UFMS) e tem como líderes as professoras Márcia Regina do Nascimento Sambugari e Patricia Teixeira Tavano, ambas do Campus Pantanal (CPAN/UFMS).

É interessante sinalizar que esses autores são um entremeado de formações e experiências, e abarcam desde pesquisadores iniciantes a pesquisadores muito experientes, pois a intenção é exatamente dar voz à diversidade, às várias maneiras de se pensar e refletir sobre a educação, à docência, a escola, discutindo a formação e a prática docente através de políticas, currículos, linguagens e culturas.

Nosso percurso começa com a produção do conhecimento no artigo “História Oral e Ensino: registro de entrevistas para análise de práticas docentes”, de Suzana Lopes Salgado Ribeiro. Segue para a discussão de elementos constitutivos da Educação e da Escola, explicitando currículos, políticas e culturas nos artigos: “Sala de aula/território”, de Patricia Teixeira Tavano; “A integralidade nas escolas das águas: consolidando rotinas educativas”, de Dilson Esquer; “A Lei 10.639/03 em sala de aula e o mito da democracia racial”, de Melina Lima Pinotti; “Tensões possíveis entre literatura surda e literatura ouvinte”, de Carlos Roberto de Oliveira Lima; e “Projetos de Educação Física na escola: possibilidades para pensar a educação social no ambiente escolar”, de Sérgio Guilherme Ibañez.

Partimos então para o debate da formação e prática docente nos artigos: “Projeto de aulas abertas: defesa da formação docente e da educação pública”, de Maria de Fátima Xavier de Anunciação Almeida e Indaya de Souza Nogueira; “A precarização do trabalho docente e a Base Nacional Comum de formação de professores (BNC-FP)”, de Ana Karolinna Rodrigues Moraes; “Sentidos do aprender a escrever e práticas em sala de aula: ensino de história e identidade”, de Daniele dos Santos Barreto; e “Formar-se professor no âmbito PIBID” de Marielli Vilalva de Jesus.

Espero que aproveitem o percurso que apresentamos aqui!

Referência Bibliográfica

NÓVOA, Antonio. Para o estudo sócio-histórico da gênese e desenvolvimento da profissão docente. Teoria e Educação. v. 4, p. 109-139, 1991.

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Edição 23 – Especial – 2022 https://revistahominum.com.br/2022/11/edicao-23-especial-2022/ Tue, 29 Nov 2022 15:07:03 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=644 Baixe agora a nova edição da Revista Hominum.

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Apresentação

Este número traz um dossiê com artigos feito para o V Colóquio Internacional de História da África “Missionação, Agências e Sujeitos Históricos” que aconteceu entre 28 e 30 de abril de 2021. Nesta quinta edição do evento a proposta foi discutir a cooperação para a multiplicação de pesquisas e novas perspectivas sobre o conhecimento da história da África colonial e pós-colonial. Dentro da tradição multidisciplinar Jefferson Olivatto Silva apresenta artigo que versa sobre a resistência africana a partir do Movimento Lumpa de Alice Lenshina da Zâmbia que mediou prática culturais e o cristianismo passado pela igreja presbiteriana e escocesa que resultou na United Church of Central Africa. Jéssica Evelyn Pereira dos Santos analisa a obra etnográfica de Wilfrid D. Hambly e Gladwyn Murray Childs que estudaram as sociedades do planalto central de Angola em pleno período colonial e da delimitação do campo antropológico.

Já Anselmo Otávio apresenta suas reflexões sobre o discurso o The African Renaissance, South Africa and the World proferido pelo vice-presidente da África do Sul, Thabo Mbeki feito em 1998 que traz uma nova perspectiva política do África do Sul e sobre os países africanos que representa um período de transformação. As ações de violência como armas de guerra são o tema do artigo de Danielle C. Fuschilo e Letícia M. Dutra que analisam o estupro feminino durante a Guerra de Ruanda (1990-1994), conflito étnico que ocorreu entre Tutsis e Hutus. Buscando compreender o papel da política externa chinesa.

Em artigo, Vitória C. Oliveira busca entender as ações do país na Cooperação Sul-Sul em especial nas relações diplomáticas com o Djibouti. Laurindo Paulo R. Tchinhama desenvolve uma reflexão sobre as medidas políticas e sanitárias implementadas pelos Estados africanos no enfrentamento da covid-19 apontando o histórico de experiências de combate a outras endemias e pandemias que acometeram os países africanos. Tamires S. Paula analisa a partir do diário de missão do padre Graciano Castellari, sua trajetória e permanência na missão nos períodos de fim do colonialismo em Moçambique mesmo no pós- independência (1975-1992). Finalmente Bruna C. Reynals e Júlia M. Lima apresentam a entrevista com o Arcebispo Dom Luís que viveu na província de cabo Delgado, ao norte de Moçambique onde ele relata os acontecimentos da guerra em Moçambique comentando os aspectos que resultaram no conflito e o sequestro das irmãs religiosas por grupos insurgentes. Esperamos que esta rica diversidade de artigos possa estimular e proporcionar debates e ao leitor e pesquisadores da área das Ciências Humanas.

Boa leitura a todos

Profa. Lúcia Helena Oliveira Silva (UNESP-Assis)

Profa. Patricia Teixeira Santos (UNIFESP- SP)

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Edição 22 – Junho de 2022 https://revistahominum.com.br/2022/06/edicao-22-junho-de-2022/ Thu, 30 Jun 2022 14:24:38 +0000 https://www.revistahominum.com/?p=593 Baixe agora a nova edição da Revista Hominum.

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A MELANCOLIA NA HISTÓRIA

Pensando o fenômeno em perspectiva global

 Maria Daniela Bastos[1]

Sergio Schargel[2]

É vasto o amonte teórico-literário que tenta alcançar o âmago daquilo que se conhece como pelo nome de melancolia, palavra derivada do grego μελαγχολία e que designa uma tristeza vaga, funda e atuante. Ao longo das idades, muitas foram as tentativas de cerzir aquilo que a diferenciava dos outros humores corporais e, assim, muitas especulações e saberes foram elaborados. Foi vista como desequilíbrio entre as substâncias dos quatro humores; como a ausência de Deus; como traço de genialidade; e, a partir da revolução copernicana que Freud (2013) realiza, como uma relação de tanatofilia que surge em decorrência da perda de um objeto libidinal não identificado. Enzo Traverso (2018) expande as ideias de Freud (2013) e as aplica à política, denominando de melancolia de esquerda duas manifestações distintas, uma ativa, a dialética da derrota, e uma passiva, a perda do futuro idealizado. Para Traverso, o polissêmico campo que se compreende por esquerda, de comunistas a sociais-democratas, sempre manifestou uma melancolia intrínseca, não apenas pelas sequenciais e diversas derrotas políticas, mas, tanto mais, pelo esvaziamento do presente em prol de um futuro idealizado.

A proposta desse dossiê é explorar as relações as relações entre luto, melancolia, história e memória, em uma perspectiva global, isto é, que privilegiem relações transculturais, comparativas, transnacionais e/ou interdisciplinares. Desta forma, a intenção é privilegiar propostas que explorem a melancolia como condição que ultrapassa barreiras de tempo e espaço – em verdade, sua fons et orig ganha novos contornos e contrastes dado a modulação que a cultura imprime na subjetividade de cada época. Assim, se tornará possível enriquecer o estado da arte em diversas frentes com visões heterogêneas, bem como contribuir para os estudos globais a partir da ótica de um fenômeno milenar.

Submissões podem ser voltadas para, mas não limitadas, aos seguintes eixos temáticos:

I) A literatura e a arte da melancolia: como manifestações artísticas absorvem a dor, a memória, a ausência de sentido e a transformam em potência criativa? (Ex.: visões comparativas entre a literatura de Paul Celan e Primo Levi).

II) A relação da história com o luto e a melancolia (ex. a visão da antiguidade, a visão medievalista, a visão da psicanálise).

III) A melancolia na teoria política (ex.: Melancolia de esquerda, obra de Enzo Traverso; o trabalho da psicanalista Maria Rita Kehl sobre melancolia, ressentimento e fascismo).

IV) Pós-memória e melancolia (ex.: pós-memória na terceira geração de sobreviventes do Holocausto).

V) A melancolia na linguística (ex.: como o conceito se transpõe entre os idiomas).

A proposta se derivou a partir de um diálogo interdisciplinar entre as pesquisas dos proponentes.

[1] Mestranda em Letras pela UFJF. Sua pesquisa e produção acadêmica refletem acerca das diversas manifestações da morte em vida, seja aquela de ordem psicológica e/ou simbólica na estrutura interna da obra de Pedro Nava. E-mail: mariadanielabelfort@outlook.com.

[2] Doutorando em Letras pela USP, doutorando em Comunicação pela UERJ, doutorando em Ciência Política pela UFF. Mestre em Letras pela PUC-Rio, mestrando em Ciência Política pela UNIRIO. Sua pesquisa e produção artística são focadas na relação entre literatura e política, tangenciando temas como teoria política, literatura política, pós-memória, antissemitismo e a obra de Sylvia Serafim Thibau. E-mail: sergioschargel_maia@hotmail.com.

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