APRESENTAÇÃO
O dossiê que ora apresentamos, “História, Mundos do Trabalho e Ensino”, chega em momento particularmente significativo para a reflexão histórica e educacional no Brasil. Em um contexto marcado por reformas curriculares, que buscam esvaziar a criticidade da disciplina histórica, pela crescente precarização das relações de trabalho docente e pelo avanço de narrativas que tentam silenciar vozes subalternas, esta coletânea surge como um esforço intelectual e político de reflexão, resistência e afirmação, sendo fruto de uma construção coletiva do GT Mundos do Trabalho – Seção Amazonas, que reuniu pesquisadores de diferentes instituições e trajetórias em torno de um compromisso comum com a história crítica e socialmente referenciada.
A relevância deste dossiê transcende os muros acadêmicos. Ao articular a História Social do Trabalho com o ensino de História, os textos aqui reunidos nos convidam a (re)pensar não apenas o que ensinamos, mas para quem ensinamos e com quais finalidades. A perspectiva da “História Vista de Baixo”, inspirada no legado de E.P. Thompson, atravessa todos os textos, restituindo protagonismo a sujeitos históricos, como os trabalhadores dos seringais, as empregadas domésticas, os professores dos interiores da Amazônia, os povos indígenas, as comunidades ribeirinhas, os estudantes com deficiência e os imigrantes nordestinos, todos, à sua maneira, construindo a própria história.
São essas vozes, muitas vezes silenciadas, que encontram neste dossiê um espaço legítimo de visibilidade e reconhecimento. A diversidade temática e metodológica desta obra é, por si só, um convite à reflexão. Os autores mobilizam um conjunto variado de fontes — cartas de liberdade, processos trabalhistas, jornais operários, álbuns de fotografias, registros censitários, decretos governamentais, relatos orais e produções de inteligência artificial — demonstrando que o ensino de História se constrói na pluralidade de linguagens e no diálogo entre passado, presente e futuro.
O dossiê, a partir dos seus textos, evidencia que o conhecimento histórico não se restringe aos livros didáticos ou às narrativas consagradas, mas se faz também no cotidiano, nas memórias familiares, nos arquivos esquecidos e nas experiências concretas dos sujeitos. As temáticas são atuais e envolvem discussões sobre a precarização do trabalho, a exploração infantil, os direitos trabalhistas, as migrações forçadas, as políticas indigenistas e as reformas educacionais. Ou seja, não são meros temas do passado, pelo contrário, são questões fundamentais que atravessam o nosso presente e desafiam o nosso futuro.
Assim, o artigo de abertura, intitulado “Ensino de História, novas linguagens e os Mundos do Trabalho: por uma aprendizagem significativa e cidadã”, de autoria de Luciano Everton Costa Teles e Wanderlene de Freitas Souza Barros, apresenta uma reflexão teórico-metodológica sobre o ensino de História. Os autores partem da constatação da crise do modelo tradicional — baseado na memorização factual e na narrativa dos “grandes vultos” — para defenderem a emergência de novas linguagens pedagógicas ancoradas na História Social do Trabalho. Para isso, a utilização de fontes documentais diversas, como processos trabalhistas, fotografias e jornais operários é essencial, sobretudo para aproximar o conteúdo escolar da experiência concreta dos estudantes. A ideia é conectar o passado das lutas trabalhistas às questões contemporâneas da precarização e da “uberização” do trabalho, reafirmando o compromisso social do ensino de História com a formação cidadã.
O segundo artigo, “Cartas de liberdade e ensino de História: possibilidades para o estudo da escravização no Vale do Taquari”, de Tamires Xavier Soares, nos presenteia com um relato de experiência pedagógica sensível e inovador. A partir das cartas de liberdade de pessoas escravizadas do Vale do Taquari, a autora desenvolveu uma atividade com estudantes do 8º ano que articulou história local, criatividade, inclusão e letramento digital. O caminho percorrido envolveu a criação de narrativas fictícias sobre a vida dos indivíduos após a liberdade e a utilização de inteligência artificial para representá-los visualmente. A atividade permitiu que estudantes com diferentes níveis de alfabetização participassem ativamente, valorizando a oralidade e a imaginação. Mais do que isso, Soares rompe com a “história única” que frequentemente associa a região do Vale do Taquari apenas à herança germânica, evidenciando a presença significativa da população africana e afrodescendente na formação local.
Paulo Roberto de Freitas Souza, no artigo “Entre rios, ciências e tradições: Educação do Campo e os Mundos do Trabalho no interior do Amazonas”, aborda uma realidade muitas vezes invisibilizada: a Educação do Campo no estado do Amazonas. O artigo parte do reconhecimento da pluralidade sociocultural do campo amazonense — ribeirinhos, indígenas, quilombolas, extrativistas — para defender uma prática pedagógica que dialogue com os saberes tradicionais e as especificidades geográficas da região. O autor lança mão da análise normativa articulada a dados do Censo Escolar e à reflexão sobre a Pedagogia da Alternância. Seu estudo aponta para a necessidade de uma escola territorializada, que respeite os tempos das águas e as dinâmicas produtivas locais.
O quarto artigo, “História oral, território e escuta sensível: ação integrada do PIBID História e Geografia na EAgro/UFRR e as interfaces com o ProfHistória”, de Eduardo Gomes da Silva Filho e Victória da Silva Lima, apresenta um relato de experiência que evidencia a potência da integração entre PIBID História e Geografia na Escola Agrotécnica da UFRR. A atividade envolveu a organização de um minicurso de História Oral como preparação para futuras entrevistas com moradores do Assentamento Nova Amazônia, com ênfase no conceito de “escuta sensível”. Os resultados indicam o fortalecimento da interdisciplinaridade, da identidade docente dos pibidianos e da preparação metodológica para o trabalho com fontes orais. Os autores demonstram como o PIBID e o ProfHistória podem dialogar, valorizando o professor como pesquisador de sua própria prática.
“Memória, identidade e inclusão no ensino de História: relato de experiência a partir de um álbum de fotos”, de Jimmy Iran dos Santos Melo e Luana Carvalho de Oliveira, nos oferece um importante relato. A atividade, desenvolvida com uma estudante com deficiência no Colégio de Aplicação da UFRR, consistiu na produção de um “livro da sua história” em formato de álbum de fotos. A metodologia, aparentemente simples, revelou-se sumamente importante: a estudante, com apoio familiar, selecionou fotografias de momentos felizes, construindo uma narrativa visual de memória, afeto e pertencimento. Essa ação pedagógica, destacada pelos autores, foi além da aprendizagem histórica, pois fortaleceu a autoestima da estudante, ampliou a participação familiar no processo educativo e permitiu que a escola reconhecesse sua história como fonte legítima de conhecimento histórico.
O sexto artigo, “As multifacetas do fazer-se docente: a trajetória de Doquinha, da professora interiorana à presidência sindical”, de James da Costa Batista e Sérgio Carvalho de Lima, realiza uma contribuição fundamental para a história do trabalho docente na Amazônia. A partir da trajetória biográfica da professora Raimunda Gomes (Doquinha), os autores evidenciam as múltiplas dimensões do fazer-se docente, quais sejam: as experiências familiares e interioranas, a intensa jornada de trabalho, a maternidade solo e a militância sindical. Centrados na história oral e na análise biográfica, os autores explicitam como a identidade do trabalhador da educação se constrói para além da sala de aula, nas lutas por melhores condições de trabalho e na participação em movimentos sociais. A greve de 2005, liderada por Doquinha, é analisada como um momento de formação política e sindical, demonstrando que a experiência docente é atravessada por conflitos, negociações e resistência.
Já Suriel Jullião de Souza Gomes, no artigo “Entre a doença e o progresso: a malária como obstáculo ao mundo do trabalho na Amazônia (1880-1930)”, aborda a relação entre doenças tropicais e produtividade econômica durante a economia gomífera. O autor envolveu-se em análises de periódicos da época e de bibliografia especializada, com o intuito de atestar como a malária constituiu um obstáculo não apenas médico, mas econômico à consolidação da economia da borracha, evidenciando as precárias condições de vida e trabalho nos seringais, o impacto da doença sobre a força de trabalho e as respostas sanitárias formuladas por instituições, como o Instituto Oswaldo Cruz e a Fundação Rockefeller. Gomes estabelece conexões entre passado e presente, demonstrando que temas como endemias, migrações e sociedades ribeirinhas permanecem atuais, e propõe o uso dessa temática no ensino de História como ferramenta para a formação de cidadãos críticos e conscientes, capazes de compreender as relações entre saúde, trabalho e desenvolvimento.
O oitavo artigo, intitulado “O trabalho agrícola como projeto de expansão territorial nos primeiros decretos do Serviço de Proteção ao Índio e Localização dos Trabalhadores Nacionais (1910-1911)”, de Eduardo Abrantes Gouvea Neto, realiza uma análise minuciosa dos primeiros regulamentos do SPILTN, desvelando como o trabalho foi institucionalizado como ferramenta de “assistência” e “integração” forçada das populações indígenas. A metodologia comparativa e qualitativa da legislação revela que a “autonomia” dos trabalhadores estava condicionada à produtividade e à disciplina, servindo como mecanismo para expandir fronteiras econômicas. Nesse sentido, Gouvea Neto demonstra como esses decretos podem ser utilizados em sala de aula para desconstruir visões eurocêntricas sobre o trabalho, evidenciando o protagonismo indígena no projeto estatal de expansão territorial e revelando práticas de apagamento e integração passiva.
Daniel Barros de Lima, no artigo “Imprensa, resistência e ensino de História: a Colônia Cearense por meio do jornal Pátria“, recupera a trajetória do jornal Pátria (1898-1899), órgão da colônia cearense em Manaus, como espaço de resistência e afirmação identitária. Ancorada na “História Vista de Baixo” e na análise das representações, o autor expõe como o periódico denunciou a exploração do sistema de aviamento nos seringais e construiu um discurso de solidariedade entre os migrantes nordestinos, salientando a agência dos trabalhadores historicamente silenciados pelas narrativas oficiais. Lima demonstra como o Pátria operou como contraponto à grande imprensa, expondo as contradições da “modernidade” manauara financiada pela exploração do trabalho e propõe o uso do periódico como recurso pedagógico para desconstruir narrativas tradicionais e humanizar o ensino de História, devolvendo ao seringueiro o status de sujeito histórico ativo que denuncia, resiste e reivindica seus direitos, e estimulando os estudantes a compreenderem a imprensa como campo de disputas e representações.
Por fim, Betsy Bell Praia Morais, com o artigo “As meninas trabalhadoras que eram a base econômica de Manaus após as ‘folias do látex'”, fecha o dossiê com uma contribuição instigante e necessária sobre a exploração infantil racializada na Manaus pós-auge da borracha. A partir da análise interseccional (gênero, raça, classe, idade) e empregando fontes primárias, como censos e jornais, a autora aponta como meninas indígenas, caboclas, negras e mestiças constituíram o “núcleo invisível” do trabalho doméstico, do comércio ambulante e dos serviços informais que sustentaram a cidade em crise, demonstrando como o Estado e a imprensa silenciaram ou enquadraram moralmente essas trabalhadoras, tornando-as invisíveis precisamente porque sua visibilidade colocaria em xeque a ordem social que as explorava. Morais propõe que essa temática seja levada à sala de aula, promovendo reflexões sobre trabalho, direitos, gênero e raça, e contribuindo para a formação de uma cidadania crítica e consciente, capaz de reconhecer e combater as desigualdades estruturais que ainda persistem em nossa sociedade.
Enfim, este dossiê, com sua pluralidade temática e metodológica, intenta contribuir para o debate sobre o ensino de História e os Mundos do Trabalho no Brasil. Sendo assim, convidamos a todos a lerem os textos aqui presentes e brevemente apresentados, com olhar atento e crítico.
Boa leitura!
Luciano Everton Costa Teles
Wanderlene Freitas de Souza Barros
Betsy Bell Praia Moraes
Mariza da Silva Freitas


