REPRESENTAÇÕES FEMININAS NAS DITADURAS E GENOCÍDIOS DO SÉCULO XX
Um importante legado das ditaduras e genocídios do século XX é o testemunho de atingidos (direta ou indiretamente) por processos históricos que moldaram ou impactaram a vida cotidiana. Em sentido oposto a encerrar, silenciar ou reconciliar, a narração de vítimas permite o aprofundamento dos traumas históricos e põe em cena outras nuances para revisar os acontecimentos desconsiderados ou desconhecidos por narrativas oficiais e historiográficas. Exemplo disso é o testemunho de Margot Völk, aos noventa e cinco anos, o qual lançou luz sobre a existência de um grupo de mulheres alemãs — do qual fez parte — forçadas a experimentar as refeições do Führer, para salvaguardá-lo de tentativas de envenenamento. E a denúncia de mulheres coreanas, submetidas à prostituição e abusos sexuais por militares japoneses, no bojo da Segunda Guerra.
Nas últimas décadas, a academia expandiu o acompanhamento e legitimação da voz de mulheres que não se calaram e resistiram aos governos ditatoriais da América Latina, cujos órgãos de repressão operacionalizaram o silenciamento, censura, desaparecimento forçado e o controle do corpo feminino, punido por desafiar o poder masculino e militar. Em linhas gerais, as pesquisas têm destacado a agência de mulheres na luta armada e pacifista, em movimentos sociais pela anistia, à procura de seus desaparecidos políticos ou na reivindicação por memória, verdade e justiça — esta última que mantém a impunidade dos envolvidos em violações de direitos humanos entre 1964 e 1985 no Brasil. Além de situarem a reprodução de discursos e posicionamentos machistas nos partidos da própria esquerda, assim como o monopólio narrativo de ex-presos políticos em livros de memórias, nos quais as companheiras ocupam um papel secundário.
O dossiê Representações femininas nas ditaduras e genocídio do século XX apresenta uma pluralidade de discussões que partem de textos literários, documentos históricos (jornais e revistas, por exemplo) e de relatos que retomam as vivências insurgentes, de modo especial no Brasil e Argentina. Nesse sentido, Memórias da guerra: a representação do trauma em Grama, de Keum Suk Gendry-Kim, de autoria de Tayane Ferreira de Almeida e Dionson Ferreira Canova Júnior, inaugura a compilação de trabalhos.
Os autores põem em pauta a memória traumática de guerra a partir de Grama (2020), uma história em quadrinhos que recupera a experiência de mulheres coreanas vítimas de violências sexuais no contexto da Segunda Guerra Mundial, especificamente ao longo da ocupação japonesa. Já Antonio Eduardo Oliveira de Lima, em Entre memórias e resistências: as vozes femininas na literatura do século XX, parte de uma abordagem interseccional para revelar a vivência de mulheres negras e latino-americanas atravessadas pela violência, silenciamento e resistência em períodos históricos distintos, a partir da produção das escritoras latino-americanas Carolina Maria de Jesus, Lydda Franco Farias e Isabel Allende.
Em relação ao protagonismo de mulheres durante a ditadura civil-militar no Brasil, no artigo O movimento feminino como elemento unificador da luta por anistia, Arielle Gonçalves Vieira e Victor Pinheiro de Menezes mostram como o Movimento Feminino pela Anistia (MFPA) direcionou grupos sociais pulverizados para a mobilização em favor da redemocratização. Os efeitos do golpe de 1964 em territórios fora do eixo hegemônico, Sul e Sudeste, são analisados por Ana Carolina Rodrigues dos Santos Souza e Karine Carvalho da Cruz, no texto Esquecidos pelo homem, confiantes em Deus: religiosas católicas e sua presença junto às vítimas da Grande Seca nordestina (1979-1983). As autoras contextualizam a religiosidade popular como “estratégia de resistência”, por meio da atuação de religiosas católicas junto à população nordestina, vítima da Grande Seca, evento que espelha a omissão do Estado.
O itinerário de militância da nordestina Dinalva Conceição Teixeira (1945-1974), desaparecida forçada, é recuperado em Dinalva Conceição Teixeira: resistência e memória camponesa na ditadura militar brasileira (1964-1985), de Gabriela Santos de Sousa e Milena Germano da Silva Chagas. O trabalho reconstrói a trajetória de Teixeira como guerrilheira do Partido Comunista do Brasil (PcdoB), que fez parte do movimento armado da Guerrilha do Araguaia, um dos episódios mais turvos do governo militar. Segundo as autoras, no Araguaia, a militante ocupou o posto de vice-comandante e incorporou-se à população local, por meio da implementação de serviços básicos de saúde e educação, também com o fim de recrutar camponeses para a organização — até ser delatada, presa e morta pelos militares.
Nos mais de vinte anos de ditadura no Brasil, a publicidade orientou a construção de um modelo ideal feminino que refletia os valores do regime, e consequentemente o apoio empresarial às Forças Armadas, como apresentam Lucas Matheus Araujo Bicalho e José Marcos Nascimento Pontes, em Pátria, família e beleza: a representação das mulheres na ditadura civil militar no Brasil, a partir da análise de anúncios que circularam à época. Por outro lado, na discussão proposta por A representação de mulheres em um jornal homossexual durante a ditadura militar brasileira, Rogerio dos Santos Michaeli Filho apresenta o periódico Lampião da Esquina como um veículo progressista que confronta o aparelho repressivo, ao denunciar a repressão e discutir temas como a violência contra a mulher, sexualidade feminina e dupla opressão enfrentada por mulheres negras.
A tríade de artigos que encerram o dossiê destaca como a produção literária brasileira e latino-americana tem elaborado o trauma coletivo da perseguição política do passado. A partir de múltiplas abordagens e gêneros, escritores e escritoras representam os temas do desaparecimento forçado; o luto suspenso de familiares das vítimas; a resistência de mulheres contra o autoritarismo e domínio masculino; ou a culpabilização de sobreviventes, vítimas de violências sexuais em centros clandestinos de repressão.
A princípio, Desaparecimento político em narrativas literárias: Ana Rosa Kucinski e a busca por uma desaparecida, de autoria de Anna Klara Carvalho Consentino, reflete acerca da militância de Ana Rosa Kucinski, desaparecida durante o regime militar brasileiro. A autora delineia um breve panorama sobre o gênero como intensificador da violência perpetrada pelo sistema repressivo; e o romance K. Relato de uma busca, de Bernardo Kucinski, irmão de Ana Rosa. Nessa leitura, a obra é compreendida como um manifesto de preservação da memória, em resposta à violência de desaparição do corpo, como define Consentino.
Em El no poder: a luta pelo luto na ditadura civil-militar argentina, Thais Neves Marcelo parte de teóricos como Hegel e Simone de Beauvoir para contrastar Antígona, tragédia clássica de Sófocles, com a peça Antígona Furiosa, da argentina Griselda Gambaro. O estudo faz um exame crítico sobre a reação feminina contra o autoritarismo, com atenção especial para a performance de gênero durante o governo da Junta Argentina e o engajamento das Madres de Plaza de Mayo, que dialoga com as obras do corpus principal de Marcelo.
Caroline Peres Martins fecha o dossiê com “‘Violación sí, delación nunca’”: o dogmatismo da esquerda armada revisto em La llamada, na qual investiga a dessacralização da esquerda armada ancorada em La llamada de Leila Guerriero, um perfil biográfico da ex-montonera Silvia Labayru, sobrevivente da Escuela de Mecánica de la Armada (ESMA). Sobretudo quanto à culpabilização de mulheres sobreviventes, vítimas de violência sexual nos centros clandestinos colocadas em suspeição, como critica Labayru — lançada ao ostracismo pela acusação de colaboração.
À guisa de conclusão, o percurso pelos artigos reunidos no dossiê Representações femininas nas ditaduras e genocídio do século XX tonifica a pluralidade da produção científica nacional ligada à presença de mulheres em eventos traumáticos do século passado, a exemplo da Segunda Guerra Mundial e dos regimes ditatoriais da América do Sul. Uma tarefa imperativa diante da ascensão da extrema-direita e da demanda de uma democracia, de fato, mais participativa e inclusiva. Desde uma perspectiva interdisciplinar, os trabalhos revisitam criticamente o passado, a fim de trazer à baila as vivências de personagens esquecidas ou pouco referenciadas, bem como de vítimas — diretas e indiretas — que questionaram o autoritarismo ou romperam com o silêncio imposto pelos algozes.
Prof.ª Ma. Caroline Peres Martins
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

